quarta-feira, 30 de outubro de 2013

A noite fio suspenso numa lâmpada


Em plena eira de rodados dos furgões o início da noite era uma estrela de outono, sonhei-te em tempo de vindimas. Era o diluir do teu vestido no meu lago, véu que transparece e desce pela retina, vinho que pende no meu sonhar ancorado a uma jangada.
Tão distante, em Paris, tu numa noite de odor Chanel, sonhei-te no aro descalço da minha camisa suada. Na raiz cansada dos meus calcanhares, o bago, um ferrão em lábios de néctar, era baço, ainda fermento, marcada a enxofre com a fechadura da noite dentro de um tonel. A noite ainda fio suspenso numa lâmpada, sempre teia de aranha em campânula, som longínquo de uma lancha, leme de marear de um pescador, quase Guernica em recortes de notícias de um jornal.
O ouro do teu anel não é manta nem abraço, há um frio na noite e o teto que se abre no susto da chuva acorda-me o sono e vagueio no sonho que aprendi no desbaste do tempo em fogueiras de infância onde adiei as partidas.
 
Anónimo

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