sábado, 28 de dezembro de 2013

Queen - Bohemian Rhapsody

 

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Steve Reich, "Music for 18 Musicians"

 

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

A noite fio suspenso numa lâmpada


Em plena eira de rodados dos furgões o início da noite era uma estrela de outono, sonhei-te em tempo de vindimas. Era o diluir do teu vestido no meu lago, véu que transparece e desce pela retina, vinho que pende no meu sonhar ancorado a uma jangada.
Tão distante, em Paris, tu numa noite de odor Chanel, sonhei-te no aro descalço da minha camisa suada. Na raiz cansada dos meus calcanhares, o bago, um ferrão em lábios de néctar, era baço, ainda fermento, marcada a enxofre com a fechadura da noite dentro de um tonel. A noite ainda fio suspenso numa lâmpada, sempre teia de aranha em campânula, som longínquo de uma lancha, leme de marear de um pescador, quase Guernica em recortes de notícias de um jornal.
O ouro do teu anel não é manta nem abraço, há um frio na noite e o teto que se abre no susto da chuva acorda-me o sono e vagueio no sonho que aprendi no desbaste do tempo em fogueiras de infância onde adiei as partidas.
 
Anónimo

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

tindersticks - travelling light



terça-feira, 22 de outubro de 2013

o tamanho do meu corpo


trago na pálpebra da noite, a cada linha, o meu silêncio que em cada quadrado azul é travo, trava e esbate no meu olhar
com dedo apertado na vértebra, sobre o soalho deslizante das musas, a mudez da tempestade veste-se no verbo desacertado
sobre os meus lábios uma nuvem é susto que me olha pelo ombro, mede o tamanho deste corpo e fecha-se dentro da minha t-shirt.
 
Nuno Teixeira de Sousa
22-10-2013

Tindersticks - Show Me Everything

 

domingo, 29 de setembro de 2013

José Gil, “O Roubo do Presente”


Nunca uma situação se desenhou assim para o povo português: não ter futuro, não ter perspetivas de vida social, cultural, económica, e não ter passado porque nem as competências nem a experiência adquiridas contam já para construir uma vida. Se perdemos o tempo da formação e o da esperança foi porque fomos desapossados do nosso presente. Temos apenas, em nós e diante de nós, um buraco negro.

O «empobrecimento» significa não ter aonde construir um fio de vida, porque se nos tirou o solo do presente que sustenta a existência. O passado de nada serve e o futuro entupiu.

O poder destrói o presente individual e coletivo de duas maneiras: sobrecarregando o sujeito de trabalho, de tarefas inadiáveis, preenchendo totalmente o tempo diário com obrigações laborais; ou retirando-lhe todo o trabalho, a capacidade de iniciativa, a possibilidade de investir, empreender, criar. Esmagando-o com horários de trabalho sobre-humanos ou reduzindo a zero o seu trabalho.

O Governo utiliza as duas maneiras com a sua política de austeridade obsessiva: por exemplo, mata os professores com horas suplementares, imperativos burocráticos excessivos e incessantes: stresse, depressões, patologias borderline enchem os gabinetes dos psiquiatras que os acolhem. É o massacre dos professores. Em exemplo contrário, com os aumentos de impostos, do desemprego, das falências, a política do Governo rouba o presente de trabalho (e de vida) aos portugueses (sobretudo jovens).

O presente não é uma dimensão abstrata do tempo, mas o que permite a consistência do movimento no fluir da vida. O que permite o encontro e a intensificação das forças vivas do passado e do futuro - para que possam irradiar no presente em múltiplas direções. Tiraram-nos os meios desse encontro, desapossaram-nos do que torna possível a afirmação da nossa presença no presente do espaço público.

Atualmente, as pessoas escondem-se, exilam-se, desaparecem enquanto seres sociais. O empobrecimento sistemático da sociedade está a produzir uma estranha atomização da população: não é já o «cada um por si», porque nada existe no horizonte do «por si». A sociabilidade esboroa-se aceleradamente, as famílias dispersam-se, fecham-se em si, e para o português o «outro» deixou de povoar os seus sonhos - porque a textura de que são feitos os sonhos está a esfarrapar-se. Não há tempo (real e mental) para o convívio. A solidariedade efetiva não chega para retecer o laço social perdido. O Governo não só está a desmantelar o Estado social, como está a destruir a sociedade civil.

Um fenómeno, propriamente terrível, está a formar-se: enquanto o buraco negro do presente engole vidas e se quebram os laços que nos ligam às coisas e aos seres, estes continuam lá, os prédios, os carros, as instituições, a sociedade. Apenas as correntes de vida que a eles nos uniam se romperam. Não pertenço já a esse mundo que permanece, mas sem uma parte de mim. O português foi expulso do seu próprio espaço continuando, paradoxalmente, a ocupá-lo. Como um zombie: deixei de ter substância, vida, estou no limite das minhas forças - em vias de me transformar num ser espetral. Sou dois: o que cumpre as ordens automaticamente e o que busca ainda uma réstia de vida para os seus, para os filhos, para si.

Sem presente, os portugueses estão a tornar-se os fantasmas de si mesmos, à procura de reaver a pura vida biológica ameaçada, de que se ausentou toda a dimensão espiritual. É a maior humilhação, a fantomatização em massa do povo português. Este Governo transforma-nos em espantalhos, humilha-nos, paralisa-nos, desapropria-nos do nosso poder de ação. É este que devemos, antes de tudo, recuperar, se queremos conquistar a nossa potência própria e o nosso país.

José Gil, “O Roubo do Presente”
Publicado na revista Visão

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Melody Gardot - Who Will Comfort Me (Live Abbey Road 2009)



sexta-feira, 26 de julho de 2013

...,

Eu, mulher sem noite, levantei uma estrela caída

ando triste... triste,
um nada em nada, tropecei.

Ó pedra silenciosa!
em paciente lucidez, deixa-me ser pé deste teu corpo em tão ciosa pegada, que o tempo é rótula com a dor no fundo de uma floresta.

Di Vale Monteiro
(26-07-2013)

quinta-feira, 11 de julho de 2013

o nome com a pele à porta


amedrontados escrevemos o nome na borda de uma hóstia posta com a pele à porta
agora vem com ele o vento que vem a monte preso ao maxilar no mamilo de um monstro
 
a terra tem a mão no socalco, tão encravado está o arado na monda que vai ao mercado a rodopiar no vestido de noite com sono morno.
 
João Romão
(11-07-2013)

terça-feira, 9 de julho de 2013

hora de uma pedra na mão fechada em sombria passagem


do desbaste de uma mastigação

...nunca bastante
o amadurecer do corpo em pedra
o acerejar do corpo da seiva na madeira
o corpuscular no fogo da lava de barro.
 
 
da opaca natureza de um sorriso
 
...nunca bastante
a senha no veio de magna dentro das mãos a pulsar um riscar
o caminho enigmático das cores a procurar um eu cromático
as imagens entre mãos fixadas nos instantes do olhar abertas sobre a retina.
 
 
do estuque de uma casa com telhado a pronunciar o eterno parêntese
 
...nunca bastante
o redesenhar no redimensionamento dos dias com destino no fim
o inventariar do chão submerso num gesso grego
a máscara moldada por fora e por dentro em conventuais  musas
a explicação do ouro no sopro para além de ser só a respiração de fogo
das figuras em fundo negro,  a fala aberta no silêncio dos cascos no fundo dos  barcos
o drama mumificado das vestes dos deuses
a libação dos signos na escrita rasgada na dureza da pedra.

foram dobras nas páginas arrumadas no vazio do esquecimento.
por dentro da mansidão o devolver de um precário aceno, preçário de um dever na plácida bondade, sempre, sempre sem diferença.

sempre aurora pesada onde escorrega o ponteiro, hora de uma pedra na mão fechada em sombria passagem, porta que se finge por um deslizar no oculto querer.
sempre argila desfeita, lançada em naufrágio na armadura da bondade.

o quotidiano é uma mesa no cheiro intenso dos lugares que são indiferença porque em cada lugar senta-se ele próprio o provérbio.

Texto
Sandro Osório
(28-11-2010)

domingo, 23 de junho de 2013

uma morada para o coração


Hoje, em plena noite, voltei a esta varanda sobre o antigo lugar de olhar o distante mar. Há uma língua no corpo das manhãs onde o divino desce sempre ao crepúsculo de uma ilha.
 
 
No perímetro da imensidão mora um coração com uma maçã e uma lágrima nos dentes. São longas as tardes de fogo de bronze a espiar o extremo azul do céu cingido por linhas retas, estradas de anjos ocultos em jatos que sobrevoam o coração, já não lhes posso escutar a distante voz, há um silêncio de mãos partidas.
 
Leandro Sá
(23-06-2013)

terça-feira, 18 de junho de 2013

Ludovico Einaudi - In un'altra vita



segunda-feira, 10 de junho de 2013

A casa onde às vezes regresso


A casa onde às vezes regresso é tão distante
da que deixei pela manhã
no mundo
a água tomou o lugar de tudo
reúno baldes, estes vasos guardados
mas chove sem parar há muitos anos


durmo no mar, durmo ao lado de meu pai
uma viagem se deu
entre as mãos e o furor
uma viagem se deu: a noite abate-se fechada
sobre o corpo


tivesse ainda tempo e entregava-te
o coração

José Tolentino Mendonça, Baldios, Lisboa, 1999, p. 43.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

falanges opacas


na asfixia do engenho da lava que lava a bata abotoada no adorno a levedar o endereço da ausência batida pelo tempo, vem o aditivo, em suave densidade, a cadência das manhãs, o coração no sono ténue de um deserto esquecido na lua.
do abandono do pano, onde se estende a noite na pele de algodão, escorre o nato sabão no toque das mãos.
 
à frente de espelhos turvos, das falas em lábios sobre os lavatórios, crustáceas fixam olhares nas rajada sorridente de uma tesoura, cativam assento sedentes em manuscrito de uma toalha de data avançada em taças de chocolate.
 
em sons impercetíveis do silêncio, de falanges opacas que despertam o embate da mastigação, há um alicate em serviço de uma boca vazia.
desfocada junto aos dentes, apertadas nas frases curtas balbuciadas como fábulas enraizadas nas árvores nascidas em chão barrento do passado, são lustrosas as sentenças sufocadas em máximas máculas.
o presente é sempre de graça no esconderijo do escorrimento na raiz do cabelo. outrora indiferença, hoje ausência de uma paciência alinhavada, prece encostada a coberto da bondade, gestação do legado no adereço do corpo, copula indolor no derrame oferecido no lado próximo da eucaristia do corpo.
 
Texto
Sandro Osório
(28-05-2013)

domingo, 12 de maio de 2013

o tempo no barco de tendeiro

 
Das tuas axilas nascem asas de tendeiro
 
no fato trazes um laço em traço traiçoeiro,
 
traficas nas unhas o riso de estilhaços,
 
riscas o chão com uma gadanha
 
onde levas oculta a arrastada língua.
 
em sorriso baço de vidreiro
 
moldas o barro de uma bilha.
 
abrigas debaixo da tua barriga uma matilha
 
a mover a água por onde passa o barco no teu ribeiro.
 
João Romão
(17-03-2012)

sábado, 11 de maio de 2013

Lambchop - This Corrosion

 

quinta-feira, 9 de maio de 2013

curta distância na asfixia de uma agenda de ausências


tanto acordo entre o tempo e a idade
tanto aprumo no plúmbeo torso das manhãs
 
em orvalhos matinais perdi vocábulos na antecipação das madrugadas dos nossos olhares
na destilação branda que expande o desejo no abismo dos lábios
aqueles vocábulos eram rosas que trocavam secretos beijos em raios de sol
 
no corpo dobrado sobre o joelho entregue ao silêncio
na tessitura da voz encoberta nas palavras onde tateio o sonho, a claridade do dia reparte a divisão do longo adiamento, e o arco do dia é tenda de uma tampa de garrafa
 
na tarde, sonhei-te, sonhei-me, um sonho sem portas ou pontes, esvoaçou-se em rasgões como de uma camisa abandonada, nele adormeci tão amplamente que não vi as paredes que nele construi.
 
o sonho é sempre contíguo à régua de contar os dias na função de medir a curta distância na asfixia de uma agenda de ausências.
 
Leandro Sá
(07-05-2013)

quarta-feira, 8 de maio de 2013

a barca nos sons dos pássaros


nas manchas distraídas, a luz transluz entre folhas do livro
pelo inquieto caminho da chuva, vagueio neste sopro em secreto inquérito das palavras
escondo este chão, de amargo olhar, do doce gesto inocente das crianças na magra mesa do amor.
 
pedi palavras emprestadas a uma criança e sou momento aberto na felicidade de um infante porque na boca de um otorrino fecha-se a fissura dos tímpanos.
 
Di Vale Monteiro
(07-05-2013)

segunda-feira, 22 de abril de 2013

dobra esquecida no olhar dos astros


As palavras escondem-se no corpo cansado
em tato da camisa, vem com ele o odor. tão secundário é o sudário deste pano, uma dobra esquecida no olhar dos astros.

os videntes sabem da minha morada cravava de avos onde os astros sopram a penumbra sobre as palavras perdidas e plantadas nos tarsos de uma rima.

os astros desceram à rua na astrologia da cidade.
o sorriso nos sábios transformam-se em assobio de assédio da adivinhação e prescrevem rasgos rasos na costura da noite.

procuro-me na saudade do que desconheço no que fui e das profecias em dedos de um avental diário arrumado nas costas do sono.

à meia-noite estou cansado para entender subtis receitas espiritualistas, e porque tudo é impreciso no desvio a desfiar o fuso em finais televisivos, reinvento-me em margens de sentir onde contratei um traje de ocultação.

refundo-me no nervo encoberto no nojo da noite.
...extremo [me], os nódulos das tábuas na casa da palavra desaguam na aba do cansaço.

Leandro Sá
(22-04-2013)

domingo, 21 de abril de 2013

as coisas figurativas e transparentes das miniaturas


voltei..., voltei na pausa cheia num cais vazio de uma cidade guarnecida em dias da lua fugidia.
 
o que vejo são os meus olhos nas coisas figurativas e transparentes das miniaturas
 
sou ainda relógio de pulso no mistério da voz de cisne dentro dos meus lábios.
 
do esquecimento, esqueço as térreas planícies do teu corpo em extensas tardes brancas de um livro lido no teu ventre, onde os lábios interrompiam a inadiável libido em resoluto clamor aberto na descuidada oração agitada dos lençóis.
a lavrar a rubra franja no coração, um pulsar de argonauta, é cancela fechada, do outro lado cela selada no teu olhar.
 
a voz anda ancorada nos teus ombros, a noite emudece o sonho e fico neste porto, embargo meus lábios, onde durmo no prefixo do sono na medida de um fato.
 
os dias são escorrimento da luz de uma meia invertida, uma minúcia de estima, casulo cerzido em ponto cruz na cirurgia da língua.
 
o que me une ao arrastão é a soma na soma de uma cruz nas asas de uma borboleta.
 
dobrei na fina camada do tempo a meticulosa tristeza em firmes margens repetidamente de serem de qualquer ser.
 
hoje, nem sei bem se é da mente ou tombo de um sentimento, as tuas pernas, se do sonho, sim, aqueles desenhos de seda no fechar cedo da voz sibilante de uma lira.
 
Leandro Sá
(20-04-2013)

segunda-feira, 15 de abril de 2013

onde estás, corpo que me sonhas?


onde estás?
do meu sonho suado onde ato o sol, onde estás?
tu que me sonhas e que me tens em tua silhueta no corpo da noite
o sonho, a distância dos meus lábios separa as aparas nas sílabas ondulantes na tarde de sol
 
distante dos nossos lábios está o rio com o meu olhar imóvel em barcos encorados com idas deste cais sempre no mesmo  lugar, nele desce uma amarra da margem em partida.
 
onde estás, corpo que me sonhas?
aqui a cidade adia tumores no comércio da idade do Tejo
são muitos os mastros a vaguear em vago lastro para poder ter-te no lanço de um astro
 
como poderei amar-te se o corpo é recobro do um devoluto quotidiano feminino.
 
Di Vale Monteiro
(15-04-2013)

terça-feira, 26 de março de 2013

angra de um manto


Fui procurar-me
levei o andar no antigo amar deitado no mar
cruzei-me com ondas arrumadas nos grafemas de imagens antigas
a emoção adormecia em qualquer olhar de visita que parece, luz que transparece.
 
a chuva veio prostituir a baba na antiga cal que reveste as paredes húmidas da casa
a sala faz-se em finais noturnos com o céu nos lábios de uma fenda que não sustende a água aberta a sussurrar o que geme
a sala é cela onde se selou a pressa, a curvar horas abertas numa funda breve
sacudo a ferida de uma doce loucura, agora angra de um manto
conservo o futuro em verso contratado no compromisso do tempo incerto
certo, o futuro, com ele trancado nas sombras de uma perdida chama.
 
Leandro Sá
(26-03-2013)

segunda-feira, 4 de março de 2013

Ludovico Einaudi - Nuvole Bianche



segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Kontratenoři (lista de reprodução)



sábado, 2 de fevereiro de 2013

Presente infinito da língua


O tato um acaso, a manhã marcada em retangulares horas, vestido com o frio ao ombro, o visitante, ainda antes, o descer alegórico sem glória no vaivém do abandono da memória, o súbito chegar, o aflito diálogo, a rápida aranha, ligeiras pernas sobre a mesa, a dobra na alternância da voz, o cair da caneta, sem cunho nem rascunho no truque truncado na garganta da autorização para a infante dança, de novo o apanhar a conversa, nunca verso só verbo ao quadril da ida, tão-somente a escarpa e forma de falar, nos carris as palavras do pensamento desconexo, a escrita é a mente da página imaginada, sem perdas, a voz feminina sensualmente sem sexo, em hiatos adverte de imediato, todas as estações têm nexo, a camisa dobrada, as calças perdidas sem número, a sorte sonhada, amarrada ao letreiro, tabuleiro de partida, dois dedos distraídos sobre o pulso, o passar a ferro nos vidros da noite, o novo dizer de ontem, histórias pessoais, nos pisos de palácios esquecidos, as musas andam em caixas fechadas, na voz feminina um microfone finge, a sedução ou a provocação, o voltar, outro tempo, outro modo, sempre nós, presente infinito da língua, água de novo a passar com a educação dos dias apertado no laço, sempre lapso absorvente no solvente corpo, os dentes junto ao odor da pele, garfos ágeis no túnel da fome, seres humanos a mastigar em aquários, a alma já não respira, o espírito só é calo calçado.
 
Sandro Osório
(01-02-2013)

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

dança na retina de deus

 
...não me perguntes pelos títulos onde me lês, pelas palavras em inconceptos seios, pelo intenso odor religioso em fotogramas nas escarpas escassas do amor
 
na esgrima da noite, a fuga sempre prenhe na lâmina de uma semântica,
 
é tráfico de uma lágrima mordente em semifusa dividida no brilho de uma estrela que dança na retina de deus.
 
 
 
 
 
[nota: o “termo” inconceptos, que surge acima, não se aproxima nem se afasta da variação aparentemente induzida por algum termo de qualquer ementário. É somente termo de si mesmo, significado dele próprio, e isento de inventários de outros sentidos, é somente aquele onde ele vive e respira, válido pelas palavras em inconceptos seios, requerido pela transpiração da língua no texto, e oferecido pela paixão de ser semente nesta seara].
 
 
Leandro Sá
(29-01-2013)

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Jan Garbarek - Hasta Siempre (Puebla)

 

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

precisamos do amanhecer nas crinas dos cavalos


mestre corista, que torre é a cor do tempo?
tanto fio, de tão longe, em ilustre anátema
não te enganes, agora, nesse tema
porque nas auroras vazas de chão raso
há sempre um pensamento dentro de um vaso,
e de repente, um pente de gente rente numa manhã em teu ventre.
 
senhor das horas largas
não falo da espingarda que comprime o som de uma bala
falo da seara de uma semente de gente.
 
do quintal em casa cava, no galope de uma pulga que te embacia a visão
alinhavas as rédeas à cintura onde estendes uma caça de animais no cativeiro dos teus dentes
prendes a maxila nas estreitas estradas
vedes estas veredas, redes ondes não tens mão
larga é a procura em larga vala,
onde rasgas este chão com a vara que te é batuta, a medir as azinhagas na taça de quem sempre a detém
 
não te foi educação o vazio que vem nas mãos de manhãs de frio
trazes o ensino doméstico de quem vende falsas ilusões.
 
senhor da carta de penhor
que pinhal é este,
em país das maravilhas de alcatrão?
que agora fechas num alçapão, rotações múltiplas em rodados de uma rodagem a arrolhar os caminhos deslizantes.
 
o fútil brilho de uma fria gema apertada num nó de uma gravata
onde tens uma pilha na mão
é ninharia que te abre a boca.
corres devagar no lagar do pio,
da massa do pão que te prende a fala,
quando queres reformar o cio,
vais ao pomar e semeias limões em pelos púbicos.
 
nesta terra presa em estandarte flamejante da saliva na asila de uma cruz,
sem encoberto nem vil odor,
venha, agora, a besta que nos atrai.
 
precisamos do amanhecer nas crinas dos cavalos
e vir com as mãos em  incenso macho
trazer o sangue nas narinas do tempo
o seio genuíno da verdade
desnudo sem a cínica mitra
nem métrica na bondade dos enganos.
 
João Romão
(17-01-2013)

domingo, 6 de janeiro de 2013

silêncio de uma única palavra


No contínuo do parque
 
dentro deste arbusto-figura
 
uma ignota flama no chão, uma lágrima no verbo da calçada
 
chamo-te...
 
ó gente de pessoa só!?
 
a rasgar o som perpétuo fechado no movimento de um desconhecido deserto
 
dissipa-se em lesto salto o vulto da língua de cordeiro na iluminura da lua
 
a romper o silêncio de uma única palavra.
 
nts
06-01-2013