sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

cópula suave dos lobos


Ó cópula suave dos lobos!
na apóstrofe branda do lume sem candeia
invocas notas soadas a ecoar em suada terra
dos dedos caiem as nervuras estrangeiras na textura do traje apertado no despertar do sono, soma a inclinar horas arrumadas no sobrado.
exploras a memória do mundo,
na queda perpétua da esperança que vem dobrada no ranger de um fotograma, desfecho fechado com a língua domesticada nas paredes de um fresco.
 
sei da eira a macerar a mesa
que se alonga no aplanar dos relâmpagos presos nas mãos submersas no afogo de uma teia por uma vida de telha.
 
a escrita é fio na rede apagada de uma meada maior do que uma ilha
dos meus lábios um laço a cerzir o saco na sombra aprisionada dos ombros.
 
João Romão
(27-12-2012)

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Poesias de Álvaro de Campos


[...]
Fecharam-me todas as portas abstractas e necessárias.
Correram cortinas de todas as hipóteses que eu poderia ver na rua.
Não há na travessa achada número de porta que me deram.
 
Acordei para a mesma vida para que tinha adormecido.
Até os meus exércitos sonhados sofreram derrota.
Até os meus sonhos se sentiram falsos ao serem sonhados.
Até a vida só desejada me farta — até essa vida...
 
Compreendo a intervalos desconexos;
Escrevo por lapsos de cansaço;
E um tédio que é até do tédio arroja-me à praia.
 
Não sei que destino ou futuro compete à minha angústia sem leme;
Não sei que ilhas do Sul impossível aguardam-me náufrago;
Ou que palmares de literatura me darão ao menos um verso.
 
Não, não sei isto, nem outra coisa, nem coisa nenhuma...
E, no fundo do meu espírito, onde sonho o que sonhei,
Nos campos últimos da alma onde memoro sem causa
(E o passado é uma névoa natural de lágrimas falsas),
Nas estradas e atalhos das florestas longínquas
Onde supus o meu ser,
Fogem desmantelados, últimos restos
Da ilusão final,
Os meus exércitos sonhados, derrotados sem ter sido,
As minhas cortes por existir, esfaceladas em Deus.
[...]
 
26-4-1926
Poesias de Álvaro de Campos