terça-feira, 30 de outubro de 2012

a ser tudo nas vagas plenas de nada


A Di Vale Monteiro
 
da noite fria, limpa no fim do dia azul de outubro
em desmaio do nervo ardente
a hora é síntese de silente lágrima.
 
dá-me a tua mão aberta
sempre a ser tudo nas vagas plenas de nada
ata-as nos seios da tua beleza
expande-me o prazer das estilhaçadas bagas
deixa-te ficar comigo na meditação de um plágio de ninguém.
 
vem com a tua mão afugentar dos meus cílios o sonho
deste acampamento de Ifigénia dentro de uma barca no sopro de Bach
onde vagueio na hora serena da retentiva fala
as manhãs são só tarde no despertar
porque “o coração acorda primeiro que os pássaros”(1)
de um vocábulo aberto a servir só um instante
“ninguém sabe como ela se foi, nem como é possível que o vaso fechado de essências aromáticas apareça vazio sem ter sido quebrado”(2).
 
Leandro Sá
(29-10-2012)
 
(1) e (2) Castelo Branco, Camilo, A Queda de um Anjo, Porto Editora, p. 103 e p. 120.

Mozart Requiem - Offertorium - Karajan



terça-feira, 23 de outubro de 2012

na palavra isolada o nome de um rosto


Ali em frente, afastado de mim, preso na porta a caminho do nada, está um esquecido papel, cunho e vulto de um apontamento divino
 
...moldura entreaberta na asa de uma chávena com a chave no fundo a fechar um pedaço de mim.
 
Di Vale Monteiro
(23-10-2012)

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Vêm soltas as horas de ontem


Vêm soltas as horas de ontem
fixam-se à cintura na escala calçada na partida de um autocarro
é na voz de água na garganta de um poema
que sobem na lentidão de lanço,
— era doce o teu olhar no olhar de rosa.
 
sei dos ramos que se propagam na finitude do tempo
e de todos os instantes belos em inquebráveis gestos nupciais,
são cios antigos na floração das casas,
são murmúrios a repetir a silhueta das árvores.
 
...a mão é sempre estilo de um lapso.
 
permanecem, os meus olhos, vigilantes da erva baixa do prado
não tenho as palavras na usura de um poema no suave pábulo
e a tarde é a rasura no sorriso da noite.
 
nas páginas de um livro fechado lido nas falas de lábios de silêncio
a manhã é sempre solteira de mim mesmo.
 
já não falo dos lagos que se estendem na luz do olhar
não digo dos canais a desaguar em outros laços
não terei o vocábulo a florir nos ramos,
estes estendem-se na sombra das grades que protegem a aragem vítrea nas fendas opacas das paredes
as árvores são âncoras para amarras de passos lassos.
 
é nas longas escadas de um manto que a luz é chão de um caminho onde levo emparelhadas as palavras iniciais, ...vou reparti-las com o silêncio do prado.
 
Texto
Sandro Osório
(08-10-2012)

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Weena-Seasons