quarta-feira, 28 de março de 2012

Hoje não encontrei o relógio de partida


Hoje não encontrei o relógio de partida
no cais se fazia a lente que engrossava o aro em índigo dia
dos dias em dote no fecho de um bote
escorria a tarde em reforçado comercial decote

antes do trilho,
afundado em mim mesmo,
o chegar do trilhar no abotoar da morte, ponho
no semblante para a hora tardia do jantar, os óculos escuro
...e agora o mundo é só meu
dissolvo do tactear as palavras do tópico de um verso protegido num preservativo
e às musas brindo o trinco do dia rasgado às avessas
em descalço laço que me sustende o joelho
desabotoa-me o chão a camisa que fecha o desfecho pega do dia

deixei-me aqui sentado neste fim de ancora
nas portas fechadas do norte
só o sono a conduzir o amarrotar na luz da lua

oh lua! andas encoberta
no teu branco preto cobre-te uma luva que rasga a mão,
das falas onde reformas o início da noite
o tempo de outros dizeres desfeito na boca das mães
abres o sono que aperta uma lente
onde chegam cães de sorriso rafeiro

a chave na porta
fendia a noite
vendia o frio na pele
num cabide
cai o dia amanhado numa fechadura dura
numa batina
a aorta numa tina em barrela de inverdades

nunca me digas – não,
só por querer viver dentro do teu sentir-te,
onde te empresto o corpo

hoje deixei-o partir na arrefecida tarde
em mansa náusea fraga.

Texto
Di Vale Monteiro
(25-02-2012)

terça-feira, 13 de março de 2012

tempo mineiro


Ó tempo mineiro

em chão rasteiro de rasas vagas

no viveiro das tuas mãos nasce uma mina de bagas.

abristes os braços sobre uma soberba cruz

e curvas sobre o alto a mesa da mentira

ocultas a arrastada língua dentro do teu sorriso de vidreiro

e purgas as juras de um bagageiro de falsetes

em carreiro onde tens nas farpas um olhar de coveiro.

na dentição, raiz do vulto do teu sobreiro

vens amontoar uma invisível pira

e do amanhecer na lente de uma brisa

és o estender de um arco de uma mira

traçada no gume de uma ira.

Texto
João Romão
(13-03-2012)

segunda-feira, 5 de março de 2012

os figos, as lágrimas e o silêncio do sangue


Os homens na voz profética dos deuses envelhecem o vinho

no obscuro caminho em nascituro suplicio nascente,

por uma besta vesga sulcam em firmes passos o mutismo da aveia,

envenenam a metamorfose alheia

nos turnos das horas arrastadas pelo chão sitiadas numa ceia

desarrumam as entradas das veredas a invisível cerca crava na cruz de uma teia.

em cimento brando na garganta da grama batida numa eira

vem o sábio do tempo vestido de armas que silenciam as lágrimas

trazer as palavras de semente plebeia

e estender as asas nos olhos fundos de feiticeira,

oferecer mel coroado de púrpura por uma rusga sementeira

vem de novo a desordem do corpo numa ara de lâminas oxidadas de fel,

a sede amanhecer nos ramos despidos de uma sombria figueira.

Texto
João Romão
(05-03-2012)

sábado, 3 de março de 2012

o estender dos dias


Desprender a tensão de toda a curva do arco na serenidade de uma flexa

corre com ela a mão cega ausente de toda a verdade, aberta em silêncio, grita o que não prende

autêntico é todo aquele correr dentro dela onde toda verdade não vem com ela

cego é o escuro naquele desencontro do arco e flexa.

Texto
Leandro Sá
(10-11-2011)