quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Vêm soltas as horas de ontem


Vêm soltas as horas de ontem
fixam-se à cintura na escala calçada na partida de um autocarro
é na voz de água na garganta de um poema
que sobem na lentidão de lanço,
— era doce o teu olhar no olhar de rosa.
 
sei dos ramos que se propagam na finitude do tempo
e de todos os instantes belos em inquebráveis gestos nupciais,
são cios antigos na floração das casas,
são murmúrios a repetir a silhueta das árvores.
 
...a mão é sempre estilo de um lapso.
 
permanecem, os meus olhos, vigilantes da erva baixa do prado
não tenho as palavras na usura de um poema no suave pábulo
e a tarde é a rasura no sorriso da noite.
 
nas páginas de um livro fechado lido nas falas de lábios de silêncio
a manhã é sempre solteira de mim mesmo.
 
já não falo dos lagos que se estendem na luz do olhar
não digo dos canais a desaguar em outros laços
não terei o vocábulo a florir nos ramos,
estes estendem-se na sombra das grades que protegem a aragem vítrea nas fendas opacas das paredes
as árvores são âncoras para amarras de passos lassos.
 
é nas longas escadas de um manto que a luz é chão de um caminho onde levo emparelhadas as palavras iniciais, ...vou reparti-las com o silêncio do prado.
 
Texto
Sandro Osório
(08-10-2012)

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