terça-feira, 30 de outubro de 2012

a ser tudo nas vagas plenas de nada


A Di Vale Monteiro
 
da noite fria, limpa no fim do dia azul de outubro
em desmaio do nervo ardente
a hora é síntese de silente lágrima.
 
dá-me a tua mão aberta
sempre a ser tudo nas vagas plenas de nada
ata-as nos seios da tua beleza
expande-me o prazer das estilhaçadas bagas
deixa-te ficar comigo na meditação de um plágio de ninguém.
 
vem com a tua mão afugentar dos meus cílios o sonho
deste acampamento de Ifigénia dentro de uma barca no sopro de Bach
onde vagueio na hora serena da retentiva fala
as manhãs são só tarde no despertar
porque “o coração acorda primeiro que os pássaros”(1)
de um vocábulo aberto a servir só um instante
“ninguém sabe como ela se foi, nem como é possível que o vaso fechado de essências aromáticas apareça vazio sem ter sido quebrado”(2).
 
Leandro Sá
(29-10-2012)
 
(1) e (2) Castelo Branco, Camilo, A Queda de um Anjo, Porto Editora, p. 103 e p. 120.

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