domingo, 15 de abril de 2012


“Por que nome chamaremos
quando nos sentirmos pálidos
sobre os abismos supremos?

De que rosto, olhar, instante,
veremos brilhar as âncoras
para as mãos agonizantes?

Que salvação vai ser essa,
com tão asas súbitas,
na definitiva pressa?

Ó grande urgência do aflito!
Ecos de misericórdia
procuram lágrima e grito

— andam nas ruas do mundo,
pondo sedas de silêncio
em lábios de moribundo.

               — — —

De longe te hei-de amar,
— da tranquila distância
em que o amor é saudade
e o desejo, constância.

Do divino lugar
onde o bem da existência
é ser eternidade
e parecer ausência.

Quem precisa explicar
o momento e a fragância
da Rosa, que persuade
sem nenhuma arrogância?

E, no fundo do mar,
a Estrela, sem violência,
cumpre a sua verdade,
alheia à transparência.

               — — —

Dos campos do Relativo
escapei.
Se perguntam como vivo,
que direi?

De um salto firme e tremendo,
— tão de além! —
chega-se onde estou vivendo
sem ninguém.

Gostava de estar contigo:
mas fugi.
Hoje, o que sonho, consigo,
já sem ti.

Verei, como quem sempre ama,
que te vais.
Não se volta, não se chama
nunca mais.

Os campos do Relativo
serão teus.
Se perguntam como vivo?
— De adeus.”

Meireles, Cecília, “Canções - Inesperadamente” in Antologia Poética, Lisboa, 2002, pp. 238-240.

1 comentário:

Hanaé Pais disse...

E do fundo do mar escapei.
E em verdade ousei.
Como vivo?
No presente.
Viva.
Em chama ardente.
Sozinha.
Para sempre...