quarta-feira, 31 de agosto de 2011

a noite ecoa nua – do tempo sem cava e sem imagem


(a Joel Santa Maria)


eco do vento, se retém no que não sou

... liquefeito uso

no aliado aperto,

em adiado chão,

neste estreito atrevo-me, rarefeito

que se repete e ouso


assomar a água de onde vem a mágoa

a desaguar no crepúsculo das sombras,

... oca cisão que desabotoa o nervo da erva,

entoa o freio no ágil veio...

            é o eixo
            é a ceia
            na eira ...a soma na elevação da soma

               ... a rédea da noite ecoa nua
               ... ao alto, ...no alto soma-se
               ... a soma da poeira na lua.

Nuno Teixeira de Sousa
(a Joel Santa Maria)
05-05-2011

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

sou agora margem e vigia do teu arvoredo

 
Guarda-rios amanheceste cedo com a foice a secar a alma

já não há o iluminar do teu peito sobre água

na garupa dos dias ausenta-se o dourar no azul das tuas asas

já não vens guardar a água do meu rio

no teu bonito azul da tua partida fez-se a luz sombria

vesti-me de amarelo a procurar-te no sol que te levou

nas veredas do pinhal circularam os abelhões sem garfo e sem mel

abriram as palavras o refúgio silencioso da minha melancolia

os meus passos caminharam tristes no pasto seco do teu prado

sou agora margem e vigia do teu arvoredo



no voo dos pássaros, num bosque de princesa medieval, procurei a minha amada sonhada

— sei que não posso falar-te

    ... o dia, foi dia triste. Beijo.
 
Sandro Osório
25-08-2011

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

apetece-me inclinar o peito por dentro dos bosques

onde moro apetece-me desorganizar as ruas da cidade
lançar ao vento o manto da rota esquecida nas estrelas
sobre os mamilos do mundo
...recitar-me
citar o teu nome
e encher as mareantes estepes com o grito do meu amar

em aras de vestes de água benta
quero morder as bainhas famintas
na azia dos aventais maternos
algemando nos umbrais do mundo
o peso de um menino alado

apetece-me inclinar o peito por dentro dos bosques
mergulhar os passos na caruma dos pinhais
e zarpar na sufocante luz dos dias

sobre outros nomes mais,
de semeadores de metais,
quero enganar as impenetráveis plúmbeas sombras
nos amanhecer dos indistintos dias
quero arfar o escuro da restante noite.



quero emergir
dos músculos que movem os ossos na vibração do sangue
quero quebrar a palavra
do contador nas gavetas das horas
quero arder no levante em ameno vento,
do reparto pasto,
quando refaço o manto doméstico.

Leandro Sá
23-05-2011

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

entre o tempo e o mar

 
No teu olímpico gesto, da vontade perfeita, de me amar

ofereceste-me a absoluta revelação do fascínio dos sons da harmonia

na translucidez repartida do doce vinho

desvendamos o porto da tua deslumbrante magia

perfeito azul da tua beleza só para mim

inventamos horas transbordantes

prado onde amamos loucamente

todo o imenso prazer dentro do teu intenso querer



em dias de desordenadas vibrações

imprudente cego desejo

desafiava o sorriso cínico

de ortodoxos passos traiçoeiros



todos aqueles dias

... sabíamos

cercados na inteireza da consciência

que viria um dia fechar as portas,

da sempre reclamada adiada verdade,

os dias puros do nosso amor puramente só para nós dois



magoámos a nossa secreta linguagem,

a luz da forte paixão,

na decifração iluminada da voz talhada na pedra

encerramos no mudo deserto da memória

um quadro dos dias rubros,

pedras feridas, buriladas sobre o peito



quando a luz do teu cabelo começou a dourar o azul da tua beleza

deixamos o tempo completamente fechar o nosso completo amar.

Leandro Sá
11-06-2010

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Súmula do mito e uma pérola grávida a respirar na lua

 
Antes da inventariação do meu nome

no imutável pesar da intemporalidade

o sangue era desejo de amar



na contraluz da lua nua

em altares de alquimistas,

chacais onde a sede é sempre faminta,

fecha-se, no paramento dos números, o calar do tempo

na finitude dos dias um inextinguível sopesar

a forjar uma fórmula marcada no sangue

que simula o vigiar da moral,

nas oferendas em ara

da capital distância do sangue

um entoar do cândido mito,

em plácito liturgia de um manto



tanto fel, tanto mel

no cálice dos deuses

a renegar o que em éden estaria.

Leandro Sá
08-08-2011

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Batentes doentes, dentes e sorrisos


Em perigosas veredas
Levo comigo desejo de amar
Na lustrosa curva da luz do dia
O claro olhar ajuizado
Em sub-reptícia moral cínica e traiçoeira
Da candura nas voluptuosas voltas e arquivoltas
Erguem-se pecaminosos ornamentos em mantos morais

O pudor dissimulando o bem ausente
Na indumentária de alquimistas
Inversão da hipérbole no arco sem dardo
Gentilmente encenada
Acena a brandura conveniente
A quimera que se veste uma moral sonhada
Pregões duma parábola rasa

Nas arquitraves que guardam os números da passagem dos dias
Batedores de gestos e olhares
Policiam a estima do inventário do meu sangue
Perfuram o contorno do único verbo reflexivo do meu nome
Do trilho da respiração da minha pele
Perscrutam rumores do sonho na interdita chama
Certificam os brilhos flutuantes nas arestas do quadro dos meus dias
Analisam trajes morais na ondulação dos meus passos.

Leandro Sá
27-05-2010

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Wearing The Inside Out