segunda-feira, 9 de maio de 2011


E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se envolam tantos anos.

David Mourão-Ferreira

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Onde está o meu mar calmo?

 
Saio para noite
a escurecer o pensamento em mim
dispo a alma de tanta luz
agasalho-me com as sombras musculares do meu corpo
refundo-me na cava do espaço negro
aperto o corpo ao frio da noite
congelo o estúpido amar que guardo

Por dentro dos bolsos acerto a voz fechada nas mãos
– Estrela, aí no alto, deixa de olhar para estes passos nocturnos.
Esquece que agora aqui estou...
Sai daí.
Não me faças sonhar mais.

No porto da noite há sempre um copo
enchi-o com uma parte de mim
estava sozinho quando bebi este corpo
– e tu..., divino, ausentaste da eucaristia do sangue!

Olho ainda para o alto
em exílio segredo digo
– Por favor, não te faças distante.
Desce daí.
Diz-me onde está o meu mar calmo.

Sandro Osório
30-11-2010