quarta-feira, 20 de abril de 2011

Romeiros a compassar a voz dos passos no perímetro da ilha

 
Desenhei tantas vezes o labor dos dias na terra,
sempre cavei uma sementeira das partidas,
e no epicentro de um imenso azul um arco de distanciamento.
Volto envolto nas dúvidas numa alva dádiva de uma dívida da vida sempre dividida,
nas esporas dos galos quebram-se os dias pelo cansaço triste de uma distante palavra,
há sempre afazeres a unir um ir e voltar onde a saudade não conhece a minha idade.

da janela do quarto de meus pais sobem na noite romeiros a compassar a voz dos passos no perímetro da ilha,
no caminho das pedras há um vaporoso silvo verde de enxofre
que estala o cio na usurpação do usufruto do corpo,
há uma obscura dança na sombra das mãos das mulheres à procura da masculinidade na noite onde nasce o macho, com dentes de ferro escondidos no ventre, para mapear o cheiro a sémen a peneirar a mente da lua.

na minha noite, da outra margem deste oceano, guardo um imenso gostar de alguém,
não sei porque te escrevo...
há muito desenhei uma cruz a segurar na sombra da porta dos dias.

engano-me neste altar de abeto a traçar rotas de afetos.
amanhã frente ao mar só levo daqui o meu deus total.

Nuno Teixeira de Sousa
S. Miguel (VFC), 19-04-2011

21 comentários:

tb disse...

Até apetece sentir a assim a saudade.
Belas as palavras conjugadas com o bom gosto da música e foto!
beijinho, Nuno!

Anónimo disse...

uma maravilha Nuno! Um romeiro dentro desta ilha! Saio deveras encantada! Mt obrigada. Abraco. imf

Gisela Rosa disse...

Parabéns Nuno!

Há um voo nítido na sua escrita. Uma asa que nos toca, que eleva o real...

Um abraço

Luísa disse...

Saudade...sempre intensa no descrever!Mas poucos o conseguem fazer de forma tão bela!
Beijinho terno

© Piedade Araújo Sol disse...

os romeiros na ilha de s.miguel sinonimo de fé.

saudades do mar e do azul, achei eu no teu texto.

a ilha continua lá.

mas há mar e mar a separar.

uma santa páscoa e um

beij

Graça Pires disse...

Escreve para não esquecer. Para que a memória das pessoas e das coisas possa permanecer no coração.
Um belo poema!
Beijos.

Canto Turdus Merula disse...

O ímpeto da escrita a nutrir o corpo nu do mútuo tempo.
A escrita, escreve-lhe uma idade que desconheço o tempo. Cada vez a controlo menos, navega ela por dentro de cada vaga onde perco cada vez mais as suas margens.

e a música...
... ... ... a música Teresa,
é apaixonante...

bj.

Canto Turdus Merula disse...

a ilha fixou-se, ...o apóstolo frente ao mar,

o vento foi laço, sopro de ventre,

em seu ramos voa-lhe a vida e o mar nidificou-lhe a vila.

mt...
Abraço, Isabel.

Canto Turdus Merula disse...

Obrigado Gisela,

Por se erguer tão real,
... o seu voo,
em toque timbre límpido.

um abraço.

Canto Turdus Merula disse...

Muito obrigado Luísa,

pela intensificadora água da saudade em suas amáveis palavras.


Grato pela sua presença, sempre bem-vinda a este canto.

Canto Turdus Merula disse...

Obrigado Piedade A. Sol.

a fé é peregrina de uma unívoca religião

quando o lago unifica o que mar separa
no perímetro azul da palavra.

Beij.

Canto Turdus Merula disse...

E na memória da demora onde roda a nora
a fala da palavra ausente
escapa-se do tempo de dentro da hora

Lavra, então, o coração
oração na transbordante glória.

Obrigado Graça. Bj.

Anónimo disse...

corajoso ofício o de semear partidas.


abraço.





mjq

Canto Turdus Merula disse...

Por vezes a parte de uma ida
traz a alma presa num fino istmo.

...gostava, então, que o ofício das chegadas
nunca fosse egresso na alça de outro ir.


Obrigado, MJQ, por me trazer ofício de chegar.
abraço.

£u(g)ä® disse...

Ola Nuno

Pois venho cá compassar a voz dos dedos as tuas palavras, e agradecer com um ENORME sorriso a gentileza e o carinho no meu dia natalício...Muito Obrigada Nuno.


Abraços
:)

Z disse...

Do romeiro do olhar para o romeiro da palavra: um abraço do muito gostar.
Z.

Canto Turdus Merula disse...

Obrigado £u(g)ä®
pela voz que vem com o seu verbo de passar.

Abraço.

Canto Turdus Merula disse...

Obrigado Z.

em caminheiro do olhar
pôs-se o obreiro, o barro, amanhar
desata-lhe da roda de oleiro outro lavrar
foge-lhe a palavra no outeiro do mar.

Um abraço.

© Piedade Araújo Sol disse...

:):)

beijo de maresia

Hanaé Pais disse...

S.Miguel, a onde semeio encontros e muitas partidas.
Sinto-a sempre como uma ilha acabada de nascer.
As furnas com o seu grito criativo," Eu Existo e Estou Aqui".
No rés da terra e num reencontro nos alicerces da memória e eu a partir.
Porque adoro partir.
E partirei sempre.
E sempre...

Canto Turdus Merula disse...

Hanaé Pais,

Gostei do seu olhar de ilha em seu inspirador “grito criativo”.
Obrigado.