terça-feira, 27 de dezembro de 2011

na elipse silenciosa de um parágrafo

 
era apenas cinco letras

na alínea da caligrafia de deus

o sol ponha-se longe demais

li-te assim,

ausente, naquele lugar,

alguém a quem falar,

fiz de conta que o sol

... afinal

era rumo da ortografia

sempre mais

na elipse silenciosa de um parágrafo.

Texto
Leandro Sá
(25-12-2011)

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

um anzol oculto na boca


Ó vulto abandonado na tarde!
vens trajado de deus
em baldio tempo
...em vadio cais

rodopias num nó de gravata
a assoprar o vaivém do fumo que esvoaça pelo centro do mundo
é desse laço e mais nenhum
que te vem o desfraldar do cio
alvéolo comensal do pio
de um anzol oculto na boca
a rebocar o tumulto da sombra da tua rajada de ferro

trazes a infinitude dos números a reproduzir a infinitude do sexo,
ancorado na contagem dos dias onde catalogamos as aparas dos dentes

à tua semelhança inventariamos o lado vazio do finito.

em forno de triviais afazeres
no preciso dito, desdito na cápsula dos dias,
é sempre rectangular o vidro que escurece o que claramente mente

neste lugar de aliança
sou número que escora os números,
a ressoar uma balança,
nos nódulos de uma casa,
uma finança,
a desabotoar detalhes finitos,
... em desgaste sombrio.

Texto
João Romão
(30-11-2011)

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

De deus a deus a sede do tempo


na fonte da sagacidade de um distante perfil

o alvorecer do sonho endovélico

adormece nos fémures dos homens

a telúrica horta na ferragem de um cravo

em litúrgica porta na sede do evo na idade de um servo

vem a iluminura do amanhecer na menstruação das árvores

dar de beber ao tempo

um antigo castro de água.

Texto
João Romão
(12-04-2011)

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

não tenho o transparente nada

 
não tenho o transparente nada

...........que rompa e emagreça

num escuro chão de sótão

em ímpeto salto que se apressa e permaneça.

Nuno Teixeira de Sousa
27-11-2011

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Eva perdida na maçã no cio de deus


Na orla descente das faixas enfaixadas
o enlaçar, o ar,
o sopro a respirar o vento
a correr nas costas das mãos
o coador nas sombras a desaguar na demão do provento
este derradeiro
onde vem senão um senão
sem mais outro jeito
com um grito nas cartilagens
do estonteante direito que prende o peito
em corpo de jumento
a figurar às costas o varão,
na farsa dos dentes,
a farda no isco a lamber o pensamento,
enfeito desfeito,
um crivo nas cartas de marear na oxidação do sono

um deus-pião sem perdão gira o poente dormente nas rótulas onde tiras a mão

quando desprende o sono o laço
seca o antigo regaço
morde o enlaço
dorme nos dentes os filhos do mito da maçã do oriente

foi pelos teus braços
que fechei os dias,
em tuas minhas fogueiras,
que a silente coloração do desassossego a lamber a lonjura da noite,
que girei a jura das palavras.

Texto
João Romão
(10-11-2011)

sábado, 26 de novembro de 2011

Notas Gerais - um país de insectos em construção


no assíduo bater das asas dos insectos na casa de buxo

guardam as secretas bolachas junto aos  sons  da voz rouca que abrem nas manhãs sobre o frigorífico

entorpecem as tripas no inchar dos olhos a levitar em rios lacrimais

trazem na cadência da noite uma madeixa acesa

em toques na madeira de nós sobre a mesa

perdem as asas no declinar dos flancos

com a alcateia cercada numa teia

oleiam as frechas a espreitar as telhas da cegueira

ao perscrutar o silvo dos machos

lambem a ceia da noite acorrentada na eira a soprar silvos fechados numa candeia

circundam a bússola apontada à púbis na floresta em floração dos metais

quando esperam pelas festas nas nesgas de telenovelas

trocam o sal do mar pelo tempo seco das romãs

trespassam as pernas na sombra que arrastam pelo asfalto

ensaiam a libido escondida na temulência cintilante do alcatrão

e trazem a fulguração do corpo na gasolina que arde ao lado do chão



os insectos machos sentam-se em cavalos com tenazes

guincham dos cartazes as peles presas nos arganazes

largam a besta onde a bolsa pesa o mesmo que o coração

bebem whisky em esplanadas no sul do país

limpam a vida com a razão das pedras prontas nas mãos

espreitam as noites fechadas em espelhos nas portas dos carros

a lamber o brilho das coxas no tule em janelas estreitas esquecidas pelo escuro.


Texto
João Romão
(26-11-2011)

domingo, 20 de novembro de 2011

um distante olhar preso no horizonte

 
Fui a um pontão espreitar o sol
era tão concreto o desejo

      capturei

      (agora)
o momento mais a ousar o mais
querer sentir-te perto

liberto-me das pedras de sal
para poder falar amando-te

— amo-te na extensão da anunciação sem prefácios
... assim me vieste

... amo-te

vestindo-me
na dilatação do limite didáctico de uma porta sem passagem

é só passagem o abraço do vento
que vem no feno de um morfema
a filtrar a pronúncia da tempestade

...não
...não nomeio o meu amar

o perto é sempre o regaço
chão a semear-me as distâncias

talvez

... talvez o tempo do meu amar
seja só o tempo da duração do cair das pétalas
um distante olhar preso no horizonte
... tão dentro de mim
a tecer um fio de pedra ao sol.

Leandro Sá
23-05-2011

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

em demasia e em maresia

 
o bom do talo
é ter sim-pa(-tia
afinca o galo a pala no casaco
que a)fin(só)gia
l ia, lia, o ar a pingar em tardia
calo-me com a casa macia
em ama-r ar-dia, doía


pata, pá, mia
na pia, corria
se o queria
     com-ia a  transportar a rasia
mover j  n o mo-via
caldo de s(ó) quando o queria
 e(j') m de véspera fazia azia
a mobília vazia


difícil entenderem-se as baratas na telepatia
    e a centopeia
sempre dizia com os nervos em teimosia
ao tele m vel explicava e co-zi ia

ainda,vou amar
ser de q u ase,  de ser fElIz
ttt alvez. ...em tecto ainda
lave tudo
em pé de ser mesa demasia


um dia... ser(ei
      VÉU
em demasia e em maresia
 
Di Vale Monteiro
06-11-2011
 

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

vaga porta

 
não...

não quero mais ser pele de um poema
noite aberta a evadir
na boémia absurda na raiz dos dentes

que morra
as absortas horas
morra a onda que enrola a hora morta
a invadir a aorta
tufo enroscado no vento
luz que voa em névoa redonda
a inchar a invisibilidade convexa da razão
a retesar a mão que segura o pulsar do pulmão

todo o tempo é eixo de uma nora
a girar líquidas horas

que estale, então,
o veio do tempo
desta vaga porta.
 
Nuno Teixeira de Sousa
17-10-2011

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Choras as vogais


Choras as vogais,
meu amor,

...quando morro
na invisibilidade da morte das estrelas

as lágrimas são corais
que chegam sempre revestidas de coralina

a um planeta bebido em cálice
terra de heras de górgonas
com olhos verdes a espreitar os homens.

Texto
Leandro Sá
(12-10-2011)

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

só para mim a segunda hora com a luz a dormir – na bainha do tempo sem imagem


(a Dário Quadros)


só minha...

o acordar da luz a dormir,
na fina linha branca nos lábios da brisa sobre os poros,
            a segunda hora,
pelo acerto da língua nos discos dentro dos calcanhares,

...só para mim


as duas sombras dobradas no fisco do batimento das pálpebras
pelas demoradas horas mortas inflectidas sobre os joelhos
agora...
sem os espinhos atados em capilares nas bainhas das calças
que me atrasam as sobras no sobrado do isco esquerdo


com o despertador apressado na língua
levo a dormir o aperto deste equívoco.

Nuno Teixeira de Sousa
(a Dário Quadros)
15-08-2011

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

privo-me em finais descalço – na tala do tempo sem imagem


(a Joel Santa Maria)


as horas adiantam-se na asa do amanhecer da casa
... quando ceiam sobre o coração
varrem-me, elas, a paixão

deixam-me no fio da fria noite um corpo quente

doce desassossego do sonho,
do mais,
no sonho que não fica
por ser demais
sendo-o sempre
em omissos jamais

em ardor,
um crivo deserdando o sabor,
da palavra dada,
privo-me em finais descalço
... no cravo que vem em graça
cravado por um fio de pasto alado ao pastor.

antes que a noite desponte
a mastigação do crepúsculo
no salivar das nervuras no cio das palavras
salga o falso estuque branco dos dias
e vem, em surdina, urdir a teia
cerzir fissuras da desfeita casa.

Nuno Teixeira de Sousa
(a Joel Santa Maria)
21-06-2011

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

a noite ecoa nua – do tempo sem cava e sem imagem


(a Joel Santa Maria)


eco do vento, se retém no que não sou

... liquefeito uso

no aliado aperto,

em adiado chão,

neste estreito atrevo-me, rarefeito

que se repete e ouso


assomar a água de onde vem a mágoa

a desaguar no crepúsculo das sombras,

... oca cisão que desabotoa o nervo da erva,

entoa o freio no ágil veio...

            é o eixo
            é a ceia
            na eira ...a soma na elevação da soma

               ... a rédea da noite ecoa nua
               ... ao alto, ...no alto soma-se
               ... a soma da poeira na lua.

Nuno Teixeira de Sousa
(a Joel Santa Maria)
05-05-2011

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

sou agora margem e vigia do teu arvoredo

 
Guarda-rios amanheceste cedo com a foice a secar a alma

já não há o iluminar do teu peito sobre água

na garupa dos dias ausenta-se o dourar no azul das tuas asas

já não vens guardar a água do meu rio

no teu bonito azul da tua partida fez-se a luz sombria

vesti-me de amarelo a procurar-te no sol que te levou

nas veredas do pinhal circularam os abelhões sem garfo e sem mel

abriram as palavras o refúgio silencioso da minha melancolia

os meus passos caminharam tristes no pasto seco do teu prado

sou agora margem e vigia do teu arvoredo



no voo dos pássaros, num bosque de princesa medieval, procurei a minha amada sonhada

— sei que não posso falar-te

    ... o dia, foi dia triste. Beijo.
 
Sandro Osório
25-08-2011

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

apetece-me inclinar o peito por dentro dos bosques

onde moro apetece-me desorganizar as ruas da cidade
lançar ao vento o manto da rota esquecida nas estrelas
sobre os mamilos do mundo
...recitar-me
citar o teu nome
e encher as mareantes estepes com o grito do meu amar

em aras de vestes de água benta
quero morder as bainhas famintas
na azia dos aventais maternos
algemando nos umbrais do mundo
o peso de um menino alado

apetece-me inclinar o peito por dentro dos bosques
mergulhar os passos na caruma dos pinhais
e zarpar na sufocante luz dos dias

sobre outros nomes mais,
de semeadores de metais,
quero enganar as impenetráveis plúmbeas sombras
nos amanhecer dos indistintos dias
quero arfar o escuro da restante noite.



quero emergir
dos músculos que movem os ossos na vibração do sangue
quero quebrar a palavra
do contador nas gavetas das horas
quero arder no levante em ameno vento,
do reparto pasto,
quando refaço o manto doméstico.

Leandro Sá
23-05-2011

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

entre o tempo e o mar

 
No teu olímpico gesto, da vontade perfeita, de me amar

ofereceste-me a absoluta revelação do fascínio dos sons da harmonia

na translucidez repartida do doce vinho

desvendamos o porto da tua deslumbrante magia

perfeito azul da tua beleza só para mim

inventamos horas transbordantes

prado onde amamos loucamente

todo o imenso prazer dentro do teu intenso querer



em dias de desordenadas vibrações

imprudente cego desejo

desafiava o sorriso cínico

de ortodoxos passos traiçoeiros



todos aqueles dias

... sabíamos

cercados na inteireza da consciência

que viria um dia fechar as portas,

da sempre reclamada adiada verdade,

os dias puros do nosso amor puramente só para nós dois



magoámos a nossa secreta linguagem,

a luz da forte paixão,

na decifração iluminada da voz talhada na pedra

encerramos no mudo deserto da memória

um quadro dos dias rubros,

pedras feridas, buriladas sobre o peito



quando a luz do teu cabelo começou a dourar o azul da tua beleza

deixamos o tempo completamente fechar o nosso completo amar.

Leandro Sá
11-06-2010