sábado, 30 de outubro de 2010

Nos círculos dos dias de ser mariposa



Venho ao fundo do dia
com o sonho capturado pelo mar
e uma cidade inteira no suave longo silêncio
corre por ela rumores de levar as paredes de pranto


seria o dia o descanso a sonhar
pesada tarefa de Psique em sono
silêncio larvar de musa petrificada
a procurar o amanhecer para pousar
nos círculos dos dias de ser mariposa

Nuno Teixeira de Sousa
30-10-2010

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Bernardo Soares


Sou uma espécie de carta de jogar, de naipe antigo e incógnito, restando única do baralho perdido.
Não tenho sentido, não sei do meu valor, não tenho a que me compare para que me encontre, não tenho a que sirva para que me conheça.
E assim em imagens sucessivas em que me descrevo – não sem verdades, mas com mentiras – vou ficando mais nas imagens do que em mim, dizendo-me até não ser, escrevendo com a alma como tinta, útil para mais nada do que para se escrever com ela. Mas cessa a reacção e de novo me resigno.
Volto em mim ao que sou, ainda que seja nada.
E alguma coisa de lágrima sem choro arde nos meus olhos hirtos alguma coisa de angústia que não ouve me empola a garganta seca.
Mas ai nem sei o que chorara, se houvesse chorado, nem porque foi o que não chorei.
A ficção acompanha-me como a minha sombra.
E o que quero é dormir.

Bernardo Soares, in Livro do Desassossego

Nobody Told Me


quarta-feira, 20 de outubro de 2010

O sonho nas tuas mãos



Escreveste sabiamente o sonho nas tuas mãos

Tantas vezes deste-me a ver as tuas palavras a navegar no meu rio

E tantas vezes te mostraste depois diferente

Mas sempre surpreendentemente no seres maior
És nascente junto à luz nocturna das estrelas
Fonte das constelações onde dormem os arcanjos em ermo sono
E assim chegaste no teu gesto simples no tocar perto o sonho
Foste mais que o próprio corpo do sonho
… foste
em absolutamente ser simplesmente total

Nuno Teixeira de Sousa
20-10-2010

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Procuro as horas dentro dos segundos



Na ara do único e eterno instante
faz pranto o círculo quebrado em dois
um arco de palavras que me chamam

Neste tarde
Caminho que desabita o texto
Que desaba os dias na deriva do contra-texto
Neste ainda tarde mais
Procuro as horas dentro dos segundos
As palavras...
Partem para amanhã no manto de uma manhã despovoada na orla dos pinheiros

Nuno Teixeira de Sousa
15-10-2010

sábado, 9 de outubro de 2010

John Lennon


domingo, 3 de outubro de 2010

Um difuso pensar perdido dentro de uma manhã



Sentir-te neste aproximar
Respiração das palavras em luz branca

_____ este perto

...no meu contraproducente silêncio

Guardo o não entender entendendo
Singularidade distinta imensa do teu sentir

Na particularidade de ser só minha
Perdida dentro de uma manhã
Um difuso pensar
Embargo do pensamento suspenso, em 36, paragem do sentido em des-sentido no caminho que trajo
Domingo que escrevo, que penso, pensar do que sinto da ambiguidade de pensar
O completo e repleto sentido feito e contrafeito, relatividade na sua magnificência dos arcos mínimos
Retenho uma sumária rasura de gestos que emanam na respiração fugaz da luz
Para logo os perder num jogo contraditório de espelhos, desfecho do enlace do dia longo de contra-texto no des-laço das minhas palavras

Nenhum sentido se houvesse um pensamento de um entendimento em libreto de in-sentidos

Sem ser epistolar, carta in-missão nas palavras arrumadas pela alma

Na nascente ao jardim mor desagua em canais a água que cai no lago, a outros lagos se lança em canais mais, até por fim no pomar desaguar, são os frutos que esperam caídos sobre o chão
... sento-me
… ouço o canto inaugural dos pássaros
Na infinitude do espaço
Nenhuma vera explicação na iluminação que se prende ao arco dos dias

Neste...
lugar de tocar o perto
Tacteio o desaguar do teu nome

_____ somos livres,

... nos (meus) rascunhos, de lanços soltos, lançados em abandono no absurdo silêncio, do desaguar no intervalar abertos na mussitação do traje
– somos livres …
Na porta ao lado da felicidade damos abrigo à dor
Livremente guardada pela liberdade –

Não trago nenhum poema
Arrumo o rumo das palavras que vagueiam no intervalar de sentidos dos des-sentidos lugar de sentir com a alma
Trago-as sem nenhuma iluminação do explicável
Trago-as alojadas em reverso sereno submersas no disperso cenário árido desenhadas no tacto

Como não sou poeta largo-as em qualquer canto que paira no breve voo dos pássaros onde plantei uma árvore com respirar do sangue com o meu nome

Gosto de lá voltar
Onde me sento e escuto o suspirar das folhas no caminho táctil do meu sangue

Onde...
me dou
me procuro
Num encontro que se faz lonjura
O tempo que é presente
Sem ser tempo ausente
É divergente no ser diferente

Nuno Teixeira de Sousa
19-09-2010