segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Pausa inevitável


Pausa inevitável

_______visível

No único trilho
_______riscar dentro do tempo
... o meu caminho

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Símbolos de sucesso




Funcionário descartável
Sem carta da função dos dias
Soma ao fim dos algarismos a 30 dias
Neste guião
O princípio é cifra a subtrair
Não há remissão nas amarras de amassar os dias
Neste dispensário sem missão
O Canto não tem faro

Canto que não é vento
Moei que não moei
Doei

Perde o bago
Atafona em (re)moinho
Sem massa
Na falta de grão
Não amassa
Roda que não roda

Dança que dança
Pião “gira que gira”
Que falta não é de grão
Nas gárgulas, coruchéus
Cornijas e capitéis
De originais pecados capitais
Regalias e outras manias
Das cismas em chefes capitães
“Gira que gira
O meu pião
Mas não t’o dou
Nem por um tostão.”

Cores que inspiram refrães
Em rosáceas que suspiram
Nas garras de uma cartilha
De sequiosos aplausos
Uma multidão de pé

Curvam-se os incrédulos
Nos baldaquinos morais
Pelos altares-mores florescem
Contos de fadas
Belas adormecidas
E príncipes encantados
Flores florões e florais
Desfalecem
Nestas romarias e outras bizarrias

“Corre corre cabacinha” da festa destes fogaréus
Na santidade deste refrão carregas as labaredas
Fogueira onde arde o teu diário
Em procissão do rosário deste silabário.

Texto
João Romão
(21-05-2010)

Xutos e Pontapés, À minha maneira



segunda-feira, 9 de agosto de 2010


 OLHO O TEJO, e de tal arte
Que me esquece olhar olhando,
E súbito isto me bate
De encontro ao devaneando —
O que é ser-rio, e correr?
O que é está-lo eu a ver?

Sinto de repente pouco,
Vácuo, o momento, o lugar.
Tudo de repente é oco —
Mesmo o meu estar a pensar.
Tudo — eu e o mundo em redor —
Fica mais que exterior.
[...]

Pessoa, Fernando, “Além-Deus”, in Cancioneiro


dizem que em sua boca se realiza a flor
outros afirmam:
            a sua invisibilidade é aparente
mas nunca toquei deus nesta escama de peixe
onde podemos compreender todos os oceanos
nunca tive a visão de sua bondosa mão

o certo
é que por vezes morremos magros até ao osso
sem amparo e sem deus
apenas um rosto muito belo surge etéreo
na vasta insónia que nos isolou do mundo
e sorri
dizendo que nos amou algumas vezes
mas não é o rosto de deus
nem o teu nem aquele outro
que durante anos permaneceu ausente
e o tempo revelou não ser o meu

Al Berto, “A Invisibilidade de Deus” in Sete Poemas do Regresso de Lázaro