segunda-feira, 26 de julho de 2010

O maestro e o figurante - Este é o meu palco

 
— Dobras do olhar;


redundâncias do olhar;
 
 
cansaço do olhar no olhar;
 

escrita de gestos ínfimos que se misturam com sons mínimos do olhar;
 

réplicas da alma presas do olhar;


— Este é o meu palco, com elas desenhei o meu deus total — interpôs o figurante.


— Desenhaste este palco com as linhas invisíveis do teu sonho — afirmou o maestro. — Seremos sempre a lateralidade do centro. Centro que não tem lugar aqui ou além.


— Maestro, dizes para lançar nos mastros os trajes dos meus olhares, mas falta o vento que está no respirar dos lobos.
— Podemos sentar os lobos no lugar dos remadores.
— Faltam-lhes os remos que trazem o alimento.
— Partir é sempre uma encruzilhada...
— Princípio onde se oculta a vera senda que às minhas mãos não se revela o caminho a escolher. Mas tu, maestro, versado nos versos do devir, conhecedor de todos os contrapontos da música total, deixas-me preso de pés e mãos neste epicentro sem centro e sem lateralidade.
— Sou feito de gesto do escultor no seu sonho maior de moldar o barro.
— Maestro, és onde inscrevo o meu sonho.
— Bebo a água nas tuas mãos, a tua sede é minha sede.
— E, quando barca lunar vier e partir para a longa noite onde adormece a água do rio?
— Assim, também partirei, na tua lateralidade estarei. A mim compete-me ser, só e unicamente, deus total, forma completa em mim mesmo e sem exterior para onde ir. Em ti não há fuga possível de ti próprio a não ser tu completamente. Por isso não importa a tua lateralidade num epicentro sem centro, este é o teu palco onde descreve o teu nome totalmente inscrito em mim.
— Mas isso... é paixão dos passos dos meus dias.
— Assim será por teres abraçado a luz do dia.

Nuno Teixeira de Sousa
23-04-2010

Philip Glass - Escape!


domingo, 11 de julho de 2010

Rebatido canto

 
... três e seis
No sopé da miragem na aba do rio
Cais de embarque nas cercaduras das noves
Sento-me no ventre de um quarto para a nona hora das vinte e quatro
Antes de me levar os passos dos dias até ao verde mor
Sigo no traje de trinta e seis
Diabólica oscilação vestida de ofídia amarela do tempo na certeza em lá chegar
Voltarei quando morre o imenso azul, ausência despovoada, junto ao horizonte da alma

Sobre a água dos lagos verde corre a mussitação do traje da casa-mor
Nos jardins deslizam no verde os peixes vermelhos
A ninhada sitiada do adormecer na fadiga da escura fome

Trajo no traje o cansaço que trago
No trago dos trinta dias
Quente odor acidulado no fulgente aljôfar sobre a pele
No silvo do chão dos passos pesados sob a luz de aço
Lanço do laço em arco lasso
Não levarei no dia primeiro a eucaristia dos trinta

Batida que me leva o espírito do rebatido canto
Verso de ângulo anverso, trave enviesada no reverso da alma
Da minha deserta janela
Dança o espírito no certo sopesar dos certos
Inventarei um secreto jogo inocente promessa a uma criança distante
Forjarei olhares redentores no amar difuso perdido no meu ego

Ao fim do dia sinto o vento frio de inverno nos silvos quentes em pôr-do-sol dos dias de verão
Ausentes sílabas do instante antropológico do recomeço no abandono de um começo.
 
Nuno Teixeira de Sousa
10-07-2010