sábado, 29 de maio de 2010

Xutos & Pontapés, Perfeito Vazio


sexta-feira, 28 de maio de 2010

Roupagem da viagem



Carta da viagem do eu
Nas cercaduras da luz entrelaça-se o sonho
Mala com a miragem do desejo
No caminho coloco as cores nas luzes e nas sombras do meu olhar
Disponho-as com os sons da força de querer o sonho
Cores que nunca foram minhas
Nem de lugar nenhum
São roupagens da viagem
Arrebatadas na quimera da jornada

Nuno Teixeira de Sousa
11-05-2010

sábado, 22 de maio de 2010

Romeo and Juliet


quinta-feira, 20 de maio de 2010

O desalinho das tuas lágrimas


Percorres as ruas da cidade

As mesmas horas
Todos os dias dos teus passos
Labor do pão do dia
Laceram sonhos desditos

A meio da jornada
Na diáfana penumbra
No zénite da luz do dia
Que suspende todas as coisas em teu redor
Sentas-te secretamente
Ao fulgor do sol
A emudecer as mágoas por perto
Que povoam o teu silêncio
As cintilantes lágrimas
Presas no trilho do sangue
Aflitas sem destino
Não encontram rio algum

Nesta margem
Sem porto
Resistente (des)tino silencioso
Represa das minhas palavras
Repreende o sonho
Que esvanece no último luar
A fragrância do nosso contorno

No desalinho nas tuas mágoas
O meu destino
Prende teu meu labirinto

Nesta luz adormece no despovoado sono
Faz-se esquecimento
O sonho real e concreto

Nuno Teixeira de Sousa
19-05-2010

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Trago de ontem


Trago de ontem

As mesmas imagens
Do passado e do futuro
Em sôfrego passo exausto
Exaurindo as mágoas
Em permanente passagem
No mesmo quadro do dia
Sob a mesma luz
Sob a mesma sombra
A mesma liturgia de instantes


Cobre-as o velame os meus olhares
Das dobraduras da plúmbea luz
Resguardo-me no canto
Ao leme o vento mantém o rumo
[...]
Sem se apartar do destino
Afasta a sorte do sonho

Nuno Teixeira de Sousa
17-05-2010
Como Ulisses te busco e desespero
como Ulisses confio e desconfio
e como para o mar se vai um rio
para ti vou. Só não me canta Homero.

Mas como Ulisses passo mil perigos
escuto a sereia e a custo me sustenho
e embora tenha tudo nada tenho
que em te não tendo tudo são castigos.

Só não me canta Homero. Mas como U-
lisses vou com meu canto como um barco
ouvindo o teu chamar -- Pátria Sereia
Penélope que não te rendes -- tu

que esperas a tecer um tempo ideia
[...]

Alegre, Manuel, “Como Ulisses te busco e desespero”



Pudesse eu não ter laços nem limites
Ó vida de mil faces transbordantes
Para poder responder aos teus convites
Suspensos na surpresa dos instantes!

Andreson, Sophia de Mello Breyner, “Pudesse Eu”

domingo, 16 de maio de 2010

Tears In Heaven


sexta-feira, 14 de maio de 2010

Oxalá


quarta-feira, 12 de maio de 2010

Meu nome faço rio


Do meu nome faço rio
Amordaço, faço e desfaço o esboço
Minuta de sons de pauta sem foz
Doutro lado ainda sou o nome
Margens das vogais imortais
Retêm violentamente
Rio que em veemência
A si faz violência

Em silêncio
Ténue denso pensamento
Penso
Não sei se sou rio
Se as margens do próprio rio
Ambas coisas omnipresente
Asas de perpétuo fragmento
Trilho ininterrupta luz nocturna
Que longínqua se faz soturna

Nuno Teixeira de Sousa
29-04-2009

domingo, 9 de maio de 2010

A Sorte, amigo, a sorte é dura ás vezes!
Agora nos affaga e nos alenta;
E logo nos opprimem seus revezes...

Após leda bonança vem tormenta;
Succede a noite escura ao claro dia,
E ao rapido prazer a magoa lenta!

Assim de minha ardente phantasia
Aos sonhos perfumados de venturas
Que a beijar-me a fronte eu já sentia,

Ai! seguiram-se tristes amarguras
Que a vida a pouco e pouco vão comendo;
Deixando espinhos só onde as verduras
Eram brandos aromas rescendendo_!

Quental, Antero de, “Desalento - Conforto”, in Raios de Extincta Luz-Poesias Ineditas


[...]. somos um pedaço de muitos lapsos que se paralisam
entre a fome de ser mais e o deslaço de ser menos. recuos e voltas
nas voltas da ironia da sátira da vaidade e do avaro. avanços no
abraço de um verbo indistinto que a sedução faz próximo e logo
indomínio. o sentimento passa a crepúsculo o óbvio a seda áspera o
duplo a múltiplo e nada do que era continua. como numa orquestra
sem auditório nem lugares cativos sentam-se os lobos no lugar dos
mortos. os vivos no poço e os escutantes no silêncio enquanto a
língua faz sons de nevoeiro ao som dos gritos fictícios. nada que
não sejamos entre o antecedente e o consequente. jogo. apenas
jogo. legado de um poder que afinal se desfaz ao mais pequeno
stacatto. da opulência do imaginário é que a febre se revela. e
alimenta. terra perdida. ambição só acústica. nunca da alma que
essa é devastada e alienante. soberbo som sem forma que se forma
na imitação da fala. danço. danço sobre o lume. dançamos sempre
mesmo quando da música nos despedimos. vivências penitenciais
entre uma ária e o inventário dos ossos.

_____________________________________________ da
carência à opulência é tudo instinto. [...]

Ferreira, Isabel Mendes, “voo_____________de inregresso”, in Piano


A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita
estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só
Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha a minha mão
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma não dança com os números
tento escondê-la envergonhado

[...]

Sou um funcionário cansado dum dia exemplar
Por que não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Por que me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço

[...]

São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida
isto todas as noites do mundo numa só noite comprida
num quarto só

Rosa, António Ramos, “Poema dum Funcionário Cansado”

Incerto ardor da vida



Escada que adia a minha queda...
Que abismo maliciosamente sorridente me espera
Passos dados na paixão de seguir degrau a degrau o prazer
Que arde na verdade antes de lá chegar
[...]

Nuno Teixeira de Sousa
07-04-2009

quinta-feira, 6 de maio de 2010

“Musa”

[...]

Musa ensina-me o canto
O justo irmão das coisas
Incendiador da noite
E na tarde secreto

Musa ensina-me o canto
Em que eu mesma regresso
Sem demora e sem pressa
Tornada planta ou pedra

Ou tornada parede
Da casa primitiva
Ou tornada o murmúrio
Do mar que a cercava

[...]

Musa ensina-me o canto
Onde o mar respira
Coberto de brilhos
Musa ensina-me o canto
Da janela quadrada
E do quarto branco

[...]

Pois o tempo me corta
O tempo me divide
O tempo me atravessa
E me separa viva
Do chão e da parede
Da casa primitiva

[...]

Musa ensina-me o canto
Que me corta a garganta

Andersen, Sophia de Mello Breyner, “Musa”

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Caminho que não nos augura e nos convida

Anjo que flutuas na lisura
Da sombra que esvoaça em asas
Em volutas perdidas do meu olhar
Habitas este caminhar
Na contra-luz de pregnâncias frágeis


Anjo das espirais imortais
Suscitas a minha opinião
Premência desabitada deste meu andar
Receio que o longo caminho
Que leva o olhar até desaparecer na curva em direcção ao horizonte
E entregar ao infinito
O sonho de teimosamente reinventarmos tudo do nada
Seja feito de tudo e de nada.

Nuno Teixeira de Sousa
03-05-2010