quarta-feira, 24 de março de 2010

Rio pungido pelo vazio

Ó tempo!
Quando abeiraste o telhado
Irrompendo as telhas
As minhas ilusões
_______________açoitastes
Regateastes
_______________os meus sonhos
As minhas crenças
_______________vilipendiastes


Do meu corpo fizeste cais
Do teu tumulto tempestivo
Na penumbra impenetrável
Traçaste o rumo de um rio
Pungido pelo vazio


Depois vens
Num dia qualquer de sol
Com aquele carácter divino
Em suave aparição
Presentear-me
Ilusão a ilusão, sonho a sonho
Tirada dessa luz que subitamente trazes.
 
Nuno Teixeira de Sousa
24-03-2010

segunda-feira, 22 de março de 2010

Chamamento Oculto

Na Impenetrabilidade dos dias
A luz turva desvenda
O sopro húmido e difuso dos Hecatônquiros
Encerram no silêncio
Da obscuridade das linhas profundas do horizonte
O chamamento do sonho Titânico
 
Nuno Teixeira de Sousa
22-03-2010

sexta-feira, 19 de março de 2010

Disse o principezinho... O que é que quer dizer «cativar»?

Ao
Afonso e Gonçalo

“— Bom dia, disse a raposa.
...
— Quem és tu? Perguntou o principezinho. És bem linda...
— Sou uma raposa, disse a raposa.
— Vem brincar comigo, disse o principezinho. Estou tão triste...
— Não posso brincar contigo, disse a raposa. Ainda ninguém me cativou.
— Ah! Desculpa, disse o principezinho.
...
— O que quer dizer «cativar»?
— Tu não és daqui, disse a raposa, o que é que procuras?
— Procuro os homens, disse o principezinho. Que quer dizer «cativar»?
...
— Não, disse o principezinho, procuro amigos. O que é que quer dizer «cativar»?
— É uma coisa muito esquecida, disse a raposa. Significa «criar laços».
— Criar laços?
— Isso mesmo, disse a raposa. Para mim não passas ainda de um rapazinho muito parecido com cem mil rapazinhos. E não preciso de ti. E tu também não precisas de mim. Para ti sou apenas uma raposa semelhante a cem mil raposas. Mas, se me cativares, teremos necessidade um do outro. Para mim serás único no mundo. E eu serei para ti única no mundo...
— Começo a compreender, disse o principezinho. Há uma flor... creio que me ela cativou...
...
Mas a raposa voltou à sua ideia:
— A minha vida é monótona. Caço galinhas e os homens caçam-me. [...] Por isso aborreço-me um pouco. Mas se me cativares a minha vida ficará como iluminada pelo sol. Conhecerei um ruído de passos que será diferente de todos os outros. Os outros passos fazem-me meter debaixo da terra. Os teus, chamar-me-ão para fora da toca como música. [...]
A raposa calou-se e olhou muito tempo o principezinho.
— Por favor... cativa-me! Disse ela.
— Gostava de o fazer, respondeu o principezinho, mas não tenho muito tempo. Tenho amigos para descobrir e muitas coisas para conhecer.
— Só se conhecem as coisas que se cativam, disse a raposa. Os homens já não têm tempo para conhecer o que quer que seja. Compram coisas feitas nos comerciantes. Mas como não existem comerciantes amigos, os homens já não têm amigos. Se queres ter um amigo, cativa-me!
— O que é que é preciso fazer? Disse o principezinho.
— É preciso ser paciente, respondeu a raposa. Sentas-te primeiro um pouco longe de mim, assim, na erva. Eu olhar-te-ei pelo canto do olho e tu não dirás nada. A linguagem é fonte de mal-entendidos. Mas, de dia para dia, poderás sentar-te um pouco mais perto...
No dia seguinte o principezinho voltou.
— Era preferível teres voltado à mesma hora, disse a raposa. Se vieres, por exemplo, às quatro da tarde, a partir das três começarei a sentir-me feliz. Quanto mais a hora avançar, mais me sentirei feliz. Chegadas as quatro já estaria agitada e inquieta; descobriria o preço da felicidade! Mas se vieres a qualquer hora, ficarei sem saber a que horas hei-de vestir o meu coração... Os rituais são necessários.
— O que é um ritual? Disse o principezinho.
— É também qualquer coisa de demasiado esquecido, disse a raposa. Aquilo que faz com que um dia seja diferente dos outros dias, uma hora das outras horas. [...]
... E quando chegou a hora da partida:
— Ah! Disse a raposa... Vou chorar.
— A culpa é tua, disse o principezinho, eu não queria que te acontecesse nada de mal, mas quiseste que te cativasse...
...
— Vai olhar outra vez as rosas. Compreenderás que a tua é única no mundo. Voltarás para me dizer adeus e eu faço-te presente de um segredo.
...
— Não são de modo nenhum parecidas com a minha rosa, ainda não são nada, disse-lhes ele. Ninguém vos cativou e vocês não cativaram ninguém. [...]
...
— Adeus, disse a raposa. Eis o meu segredo. É muito simples: só se pode ver bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos.
...
— É o tempo que perdeste com a tua rosa que torna a tua rosa tão importante.
Os homens esqueceram esta verdade, disse a raposa. Mas tu não deves esquecer-te. Torna-te para sempre responsável por aquilo que cativaste.”

de Saint-Exupéry, Antoine. O Principezinho.