quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Texto de Sandro Osório





Contas da vida a desfiar o nosso amor

De manhã
levantas-te sem nada dizeres
vais à cozinha põe o café no fogão a aquecer
ligas o rádio colocado sobre o frigorífico
,,, são notícias da manhã
as mesmas de todos os dias
deixas a ferver o café sobre fogão durante mais que só o ferver
absorta neste fervente do café ouves as notícias da rádio quando lês o jornal de distribuição gratuita que trazes nos dias anteriores
subitamente lembras-te do café, naquele ferver mais, e fechas o fogão
lembro, ficar no meu perplexo absurdo pensar, que o escuro do café era por o deixares assim naquele fervente durante algum tempo mais
colocas uma chávena no recanto do armário da cozinha e enches com o café
leva-lo contigo e sentas-te à mesa da cozinha

Por fim, quando acabares o pequeno-almoço, preparas-te para sair
,,, diriges-te para a porta, afastas-te de tudo que é da casa e de mim
,,, vais...
por vezes, e só muito raramente lembras-te de me dizer, a única coisa que de manhã dizemos um ao outro num silêncio já cansado
,,, até logo...

No esférico começo do dia
é o gesto feérico no perfume que levas contigo a ficar na chama ignífuga, que paira dentro de mim, a glorificar uma ilusão... a desfazer sentidos

Nesse sempre perto da tua absoluta cândida indiferença
eu que te amava
tu figuravas dentro de mim com aquilo que eu sempre recolhia de bonito em ti, afinal o absurdo lapso da vida caie sobre mim
sei que nunca tiveste nenhum entusiasmo pelos meus gostos, pelo meu pensar e pelas minhas vontades
Sei...
,,, sei que sempre fomos muito cordatos e compreensíveis um com o outro, mesmo no ínfimo da nossa relação, no desacordo de (des)interesses, nunca encontramos nenhum inconveniente

Aqueles horríveis concursos de televisão
,,, malditas e infindáveis séries de entristecer
,,, filmes, que debicavam gestos de bela adormecida, a amansar a noite e pôr a fadiga a dormir
,,, ao lado da porta estão as espadas de S. Jorge que alimentas ao entardecer

,,, lembro-me quando no nosso quarto amávamos pela noite dentro...
sei, agora, que só desfiávamos o nosso amor
,,, é a afeição a soçobrar na enorme estima minha

Sei que dentro de ti anda triste um pomar de romãs com portas ocultas para minha estima.

Texto
Sandro Osório
(23-06-2010)

2 comentários:

Anónimo disse...

dois textos . este e o abaixo com som muito muito "audível".




a alma canta o canto de uma iluminação interior.


abraço.

imf

£µ(g)ä® disse...

Nossa...

Uma das coisas mais sentidas que já li. A rotina, a vida, o tempo, a superficialidade, a matéria, não sei bem o quê ao certo, afogando, mergulhando, matando o que em nós pesa e etéreo ao mesmo tempo, e quer sair, soltar-se, voar... Tudo o que de fato importa nunca nos é palpável, ou consertável, visivel...é sempre só sentido...e como dói esse não poder tocar do que se esvai diante dos nossos olhos perplexos, espantados, impotente... Amar dói e não amar também...


Gostei muito.


=)