domingo, 5 de dezembro de 2010

Texto de Sandro Osório



Inconstância das palavras

Fazia frio azul no pesado fundo
Os murmúrios no ventre do vento de água
Escorria melancolicamente pelos vidros da noite
Pelas fendas das paredes anunciavam
Novelos cinzentos de sorriso difuso presos no temor molhado
Caíam em cortinas e agarravam-se às árvores em abraços húmidos

Sem as estrelas para poder perder-me no interior de um ínfimo sonho

As formigas indiferentes à inconstância das minhas palavras
Seguiam junto ao degrau baixo na porta da cozinha
De manhã, ali mesmo, as formigas continuamente redesenhavam os caminhos de ontem
Da janela. Sobre os telhados gastos do tempo, paredes fatigadas das ruínas que remoem lentamente rumores dos ausentes
De manhã, vêm também, sem razões, os pássaros, tal como as formigas, indiferentes à inconstância das minhas palavras, nada me disseram
Vesti o estafado casaco e fui ter com as palavras
São as sílabas da memória futura que vêm primeiro desabar o silêncio do corpo

Procurei ainda as palavras nos dias seguintes
Imprecisamente dentro nelas permanecia...
O que rigorosamente havia
O sussurrar no ventre do vento de água
As minhas palavras ecoam no marulhar em pedras do mar
As falas dos peixes no silêncio do oceano

De Sandro Osório
(11-10-2010)

2 comentários:

. intemporal . disse...

.

. são as palavras [estas] que lavram o útero uterino do seio que es.ventra o ventre que a.flora e floresce .

.

. grat.íssimo pela presença no aniversário do #intemporal#, sem a qual, tudo seria efectiva.mente mais pobre .

.

. abraço .

.

tb disse...

Vestimos as palavras gastas e damos-lhes novos sentidos sentir.
Gosto do sentir por cá.:)
Abraço.