terça-feira, 30 de novembro de 2010

Sem tudo ser silêncio


Por vezes um quase de tudo
que se faz tão ausente
quanto o presente silêncio

turva a uniformidade estilhaçada
o mar translúcido no ubíquo silêncio
emerge o quase tudo
detido num sorriso em deriva embargado
no apartado lamento embriagado

sem tudo ser silêncio
é senda de outro incógnito caminho no qual caminho

junto ao mar fragmentos dispersos
laço de lacre desfeito na argila do corpo
em sangue de Hidra dardos sibilantes
desferidos nos passos do sol
traçados nas transbordantes ondulações do mar
desfazem a arquitectura inaugural
os murmúrios das ondas ao luar

Nuno Teixeira de Sousa
22-06-2010

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Imortal, Rodrigo Leão


domingo, 21 de novembro de 2010

Ao lado esquerdo de uma corda que sufoca




um
      passo
                laço
                        lasso

de um diapasão
                     afinado
ao lado esquerdo
       de uma corda
       que sufoca
que importa
a entrada da porta
por onde passa a faca

da lezíria de punhais de um corpo deitado
traz o mar as palavras
quadro de ardósias do fundo
... que afunda



Nuno Teixeira de Sousa
21-11-2010


quinta-feira, 18 de novembro de 2010

onde ajeito o descoberto


no desajusto encoberto
no cobro
onde ajeito o descoberto
o destro deserto certo
era simples ainda solitário
ser simplesmente o ser ontem
desperto salto insólito dentro das palavras
era ser justo canto lugar de imagens
paridade no olhar da simulação opaca do silêncio

da incongruência dos arcanos onde a mão é indomínio ministério
lança-se a palavra em surpreendente investida na cruzada de mar adentro

que interessa ser ilha
onde o madrugar é uma jazida de silêncios
auditório longínquo de histórias
provectas crónicas desfasadas nos murmúrios da antropologia das festas
conservei este contraproducente encantamento por uma ínsula distância

que interessa saber se me entendes
se deténs o saber perto do lapidar das distâncias

Nuno Teixeira de Sousa
18-11-2010

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Sem tábua nem título


março

           da têmpera
                             primordial
                                              do aço

aro
       do tempo
                      incógnito perdido
                                                 no barro

onze
         mil sóis mil
                           e tempo mil
                                                em bronze

era
       barco no ar do rumo
                                      sem o sim ao pão
                                                                 e o não à terra


Nuno Teixeira de Sousa
09-11-2010

Modulação de um texto

da rápida pressa

manga em mãos desaperta

a janela impressa

uma metamorfose incerta

meta que era essa?

nua tipografia cavada e aberta

de uma espera rente à lente

simula e desespera lua deserta

que a lavra desmente

a cava da cava palavra desperta

quando a fátua corrente prende

Nuno Teixeira de Sousa
08-11-2010

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

(do tempo 04 sem imagem)


(do tempo 04 sem imagem)

o vento grava linha cava
na carena batida do barco
em aurora do sono na plantação das sementes
um repartido arco sem agravo da palavra ausente
porque...
é também cava a anteface no côncavo das mãos onde se arruma rumo da alma

Nuno Teixeira de Sousa
04-11-2010

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

(o tempo a 03 sem imagem)


(o tempo a 03 sem imagem)


quando o verbo é fortuna
densa linha no desfiar que adensa
a reserva que se faz passo
de sobressaltos em silvos prematuros crepusculares da noite
versa adversa advertência sibilante
na justa clarividência
o vidente ouro em barco fenício é manhã madura

Nuno Teixeira de Sousa
03-11-2010

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Biografia do grito do tempo

 
A biografia do grito do tempo
Que o escultor serenou na respiração da pedra
Reteve-a nas cercaduras da idade da luz

Suspenso nas imutáveis dobras de transitórios instantes
A ortografia de adágios dos (des)encontros
Renascido na fina encruzilhada de um perdido olhar
Da lealdade suave de um fotógrafo

Não há voos que perduram
Não há gestos que se eternizam
Senão efémeros instantes
No ápice da sua dissipação antes
Refazem-se a si próprios
O fulgor de novos instantes

Nuno Teixeira de Sousa
15-06-2010