segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Bernardo Soares


Sou uma espécie de carta de jogar, de naipe antigo e incógnito, restando única do baralho perdido.
Não tenho sentido, não sei do meu valor, não tenho a que me compare para que me encontre, não tenho a que sirva para que me conheça.
E assim em imagens sucessivas em que me descrevo – não sem verdades, mas com mentiras – vou ficando mais nas imagens do que em mim, dizendo-me até não ser, escrevendo com a alma como tinta, útil para mais nada do que para se escrever com ela. Mas cessa a reacção e de novo me resigno.
Volto em mim ao que sou, ainda que seja nada.
E alguma coisa de lágrima sem choro arde nos meus olhos hirtos alguma coisa de angústia que não ouve me empola a garganta seca.
Mas ai nem sei o que chorara, se houvesse chorado, nem porque foi o que não chorei.
A ficção acompanha-me como a minha sombra.
E o que quero é dormir.

Bernardo Soares, in Livro do Desassossego

2 comentários:

£µ(g)ä® disse...

Olá Nuno

Pois pode sim, fique a vontade. Se tem uma coisa que gosto é quando o vento arrasta as folhas para voarem longe... As folhas sempre agradecem a viagem. O que seriam das "folhas" de Fernando Pessoa se não tivessem voado até aqui?! Mesmo que como Bernanrdo Soares, são folhas dignas, muito dignas de voarem longe...


=)

Vieira Calado disse...

Um livro para ler e ir relendo sempre.

Saudações poéticas.