domingo, 9 de maio de 2010

A Sorte, amigo, a sorte é dura ás vezes!
Agora nos affaga e nos alenta;
E logo nos opprimem seus revezes...

Após leda bonança vem tormenta;
Succede a noite escura ao claro dia,
E ao rapido prazer a magoa lenta!

Assim de minha ardente phantasia
Aos sonhos perfumados de venturas
Que a beijar-me a fronte eu já sentia,

Ai! seguiram-se tristes amarguras
Que a vida a pouco e pouco vão comendo;
Deixando espinhos só onde as verduras
Eram brandos aromas rescendendo_!

Quental, Antero de, “Desalento - Conforto”, in Raios de Extincta Luz-Poesias Ineditas


[...]. somos um pedaço de muitos lapsos que se paralisam
entre a fome de ser mais e o deslaço de ser menos. recuos e voltas
nas voltas da ironia da sátira da vaidade e do avaro. avanços no
abraço de um verbo indistinto que a sedução faz próximo e logo
indomínio. o sentimento passa a crepúsculo o óbvio a seda áspera o
duplo a múltiplo e nada do que era continua. como numa orquestra
sem auditório nem lugares cativos sentam-se os lobos no lugar dos
mortos. os vivos no poço e os escutantes no silêncio enquanto a
língua faz sons de nevoeiro ao som dos gritos fictícios. nada que
não sejamos entre o antecedente e o consequente. jogo. apenas
jogo. legado de um poder que afinal se desfaz ao mais pequeno
stacatto. da opulência do imaginário é que a febre se revela. e
alimenta. terra perdida. ambição só acústica. nunca da alma que
essa é devastada e alienante. soberbo som sem forma que se forma
na imitação da fala. danço. danço sobre o lume. dançamos sempre
mesmo quando da música nos despedimos. vivências penitenciais
entre uma ária e o inventário dos ossos.

_____________________________________________ da
carência à opulência é tudo instinto. [...]

Ferreira, Isabel Mendes, “voo_____________de inregresso”, in Piano


A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita
estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só
Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha a minha mão
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma não dança com os números
tento escondê-la envergonhado

[...]

Sou um funcionário cansado dum dia exemplar
Por que não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Por que me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço

[...]

São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida
isto todas as noites do mundo numa só noite comprida
num quarto só

Rosa, António Ramos, “Poema dum Funcionário Cansado”

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