quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Térrea vogal verde átona


Transepto aberto nas distâncias oblíquas
o dia inteiro do trabalho em veleiro
do circunflexo estio de vigilante
      levanto
sem til nem estilo
a erma ânsia
da lebre em febre névoa
o barco do nevoeiro mor
ébrio prefácio em salto do esgar
... vejo
... todo o espelho
uma elipse
curvatura no olhar que turva
...
só posso ser
onde posso estar
no receio de não poder ser
por querer estar
em outro ter
verte o verbo que adverte
assim terá que ser


...
descobrir
em todo ser, ter e estar
neste estuário de tesselas
rio que navega por desvendar
a semiótica tensa
prensa em código de névoa
imprensa em argila de uma ilíquida ilha

depois do dia
depois da sementeira
foi depois colheita
no colher a noite
da miragem ainda alheia
nas veias da viragem na voragem névoa
desloco o ágil colapso
dentro do lapso no dente do tempo



naquela névoa
uma mão
a ocultar os brilhos do rio
das imagens rasas do espelho
os ausente reflexos
leva o olhar a outro diferente navegar

represa de saltos e mobilismo de avanços
lugar sombrio sempre obscuro
no prumo à desaprovação das palavras



daquele tardar dentro do nevoeiro mor
no  voo da chegada dos turdus
a térrea vogal verde átona
foi janela de uma capela de suave asa aberta
luminescência a guardar a reserva do silêncio
sobre o cílio antagónico do meu parecer ser
era redentor o teu abrir no porto final de chegadas
como foi redentor o altíssimo nevoeiro
fechei a neblina mor nas luzes sobrevivente da absorvente noite
o olhar de criança no arável campo das estrelas
caiu sobre o chão do vão presente
no meu querer, enfim
... um mero ensaio
no meu só querer dormir

Nuno Teixeira de Sousa
12-12-2010

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Texto de Sandro Osório





Contas da vida a desfiar o nosso amor

De manhã
levantas-te sem nada dizeres
vais à cozinha põe o café no fogão a aquecer
ligas o rádio colocado sobre o frigorífico
,,, são notícias da manhã
as mesmas de todos os dias
deixas a ferver o café sobre fogão durante mais que só o ferver
absorta neste fervente do café ouves as notícias da rádio quando lês o jornal de distribuição gratuita que trazes nos dias anteriores
subitamente lembras-te do café, naquele ferver mais, e fechas o fogão
lembro, ficar no meu perplexo absurdo pensar, que o escuro do café era por o deixares assim naquele fervente durante algum tempo mais
colocas uma chávena no recanto do armário da cozinha e enches com o café
leva-lo contigo e sentas-te à mesa da cozinha

Por fim, quando acabares o pequeno-almoço, preparas-te para sair
,,, diriges-te para a porta, afastas-te de tudo que é da casa e de mim
,,, vais...
por vezes, e só muito raramente lembras-te de me dizer, a única coisa que de manhã dizemos um ao outro num silêncio já cansado
,,, até logo...

No esférico começo do dia
é o gesto feérico no perfume que levas contigo a ficar na chama ignífuga, que paira dentro de mim, a glorificar uma ilusão... a desfazer sentidos

Nesse sempre perto da tua absoluta cândida indiferença
eu que te amava
tu figuravas dentro de mim com aquilo que eu sempre recolhia de bonito em ti, afinal o absurdo lapso da vida caie sobre mim
sei que nunca tiveste nenhum entusiasmo pelos meus gostos, pelo meu pensar e pelas minhas vontades
Sei...
,,, sei que sempre fomos muito cordatos e compreensíveis um com o outro, mesmo no ínfimo da nossa relação, no desacordo de (des)interesses, nunca encontramos nenhum inconveniente

Aqueles horríveis concursos de televisão
,,, malditas e infindáveis séries de entristecer
,,, filmes, que debicavam gestos de bela adormecida, a amansar a noite e pôr a fadiga a dormir
,,, ao lado da porta estão as espadas de S. Jorge que alimentas ao entardecer

,,, lembro-me quando no nosso quarto amávamos pela noite dentro...
sei, agora, que só desfiávamos o nosso amor
,,, é a afeição a soçobrar na enorme estima minha

Sei que dentro de ti anda triste um pomar de romãs com portas ocultas para minha estima.

Texto
Sandro Osório
(23-06-2010)

domingo, 12 de dezembro de 2010

Sonhos sem sombra sem som audível


Personagens sonoras sem som audível
Imagens imprecisamente acentuadas pelo contraste
Nas cores iluminadas pela não-luz
Desenham-se a si mesmas
O timbre de sonhos sem sombra
Caminham nas veias do tacto ausente
Decidem lugares e tempos indecifráveis
Trazem do dia o não dito e vivem sem dizê-lo

Nuno Teixeira de Sousa
25-11-2009

sábado, 11 de dezembro de 2010

Boa noite, assim


Boa noite,
...:

“ assim como plátano volto ao lapso do tempo. é de síntese e de respostas que nos inscrevo. viventes evadidos. os anjos são apenas intervalos que fazem do mundo um lugar de berços. vadios. falésias em sulcos que inutilizam o inexprimível. era uma vez as mãos. tão nuas. as  minhas mãos na espessura do texto que é pastor. e pasto de ais.”

De
Isabel Mendes Ferreira
in As Lágrimas Estão Todas na Garganta do Mar,
Lisboa, 2010, p. 71.

domingo, 5 de dezembro de 2010

Inconstância das palavras

 
Fazia frio azul no pesado fundo
Os murmúrios no ventre do vento de água
Escorria melancolicamente pelos vidros da noite
Pelas fendas das paredes anunciavam
Novelos cinzentos de sorriso difuso presos no temor molhado
Caíam em cortinas e agarravam-se às árvores em abraços húmidos

Sem as estrelas para poder perder-me no interior de um ínfimo sonho

As formigas indiferentes à inconstância das minhas palavras
Seguiam junto ao degrau baixo na porta da cozinha
De manhã, ali mesmo, as formigas continuamente redesenhavam os caminhos de ontem
Da janela. Sobre os telhados gastos do tempo, paredes fatigadas das ruínas que remoem lentamente rumores dos ausentes
De manhã, vêm também, sem razões, os pássaros, tal como as formigas, indiferentes à inconstância das minhas palavras, nada me disseram
Vesti o estafado casaco e fui ter com as palavras
São as sílabas da memória futura que vêm primeiro desabar o silêncio do corpo

Procurei ainda as palavras nos dias seguintes
Imprecisamente dentro nelas permanecia...
O que rigorosamente havia
O sussurrar no ventre do vento de água
As minhas palavras ecoam no marulhar em pedras do mar
As falas dos peixes no silêncio do oceano

Sandro Osório
11-10-2010

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Sem tudo ser silêncio


Por vezes um quase de tudo
que se faz tão ausente
quanto o presente silêncio

turva a uniformidade estilhaçada
o mar translúcido no ubíquo silêncio
emerge o quase tudo
detido num sorriso em deriva embargado
no apartado lamento embriagado

sem tudo ser silêncio
é senda de outro incógnito caminho no qual caminho

junto ao mar fragmentos dispersos
laço de lacre desfeito na argila do corpo
em sangue de Hidra dardos sibilantes
desferidos nos passos do sol
traçados nas transbordantes ondulações do mar
desfazem a arquitectura inaugural
os murmúrios das ondas ao luar

Nuno Teixeira de Sousa
22-06-2010

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Imortal, Rodrigo Leão


domingo, 21 de novembro de 2010

Ao lado esquerdo de uma corda que sufoca




um
      passo
                laço
                        lasso

de um diapasão
                     afinado
ao lado esquerdo
       de uma corda
       que sufoca
que importa
a entrada da porta
por onde passa a faca

da lezíria de punhais de um corpo deitado
traz o mar as palavras
quadro de ardósias do fundo
... que afunda



Nuno Teixeira de Sousa
21-11-2010


quinta-feira, 18 de novembro de 2010

onde ajeito o descoberto


no desajusto encoberto
no cobro
onde ajeito o descoberto
o destro deserto certo
era simples ainda solitário
ser simplesmente o ser ontem
desperto salto insólito dentro das palavras
era ser justo canto lugar de imagens
paridade no olhar da simulação opaca do silêncio

da incongruência dos arcanos onde a mão é indomínio ministério
lança-se a palavra em surpreendente investida na cruzada de mar adentro

que interessa ser ilha
onde o madrugar é uma jazida de silêncios
auditório longínquo de histórias
provectas crónicas desfasadas nos murmúrios da antropologia das festas
conservei este contraproducente encantamento por uma ínsula distância

que interessa saber se me entendes
se deténs o saber perto do lapidar das distâncias

Nuno Teixeira de Sousa
18-11-2010

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Sem tábua nem título


março

           da têmpera
                             primordial
                                              do aço

aro
       do tempo
                      incógnito perdido
                                                 no barro

onze
         mil sóis mil
                           e tempo mil
                                                em bronze

era
       barco no ar do rumo
                                      sem o sim ao pão
                                                                 e o não à terra


Nuno Teixeira de Sousa
09-11-2010

Modulação de um texto

da rápida pressa

manga em mãos desaperta

a janela impressa

uma metamorfose incerta

meta que era essa?

nua tipografia cavada e aberta

de uma espera rente à lente

simula e desespera lua deserta

que a lavra desmente

a cava da cava palavra desperta

quando a fátua corrente prende

Nuno Teixeira de Sousa
08-11-2010

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

(do tempo 04 sem imagem)

(do tempo 04 sem imagem)

o vento grava linha cava
na carena batida do barco
em aurora do sono na plantação das sementes
um repartido arco sem agravo da palavra ausente
porque...
é também cava a anteface no côncavo das mãos onde se arruma rumo da alma

Nuno Teixeira de Sousa
04-11-2010

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

(o tempo a 03 sem imagem)

 
(o tempo a 03 sem imagem)

quando o verbo é fortuna
densa linha no desfiar que adensa
a reserva que se faz passo
de sobressaltos em silvos prematuros crepusculares da noite
versa adversa advertência sibilante
na justa clarividência
o vidente ouro em barco fenício é manhã madura

Nuno Teixeira de Sousa
03-11-2010

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Biografia do grito do tempo

 
A biografia do grito do tempo
Que o escultor serenou na respiração da pedra
Reteve-a nas cercaduras da idade da luz

Suspenso nas imutáveis dobras de transitórios instantes
A ortografia de adágios dos (des)encontros
Renascido na fina encruzilhada de um perdido olhar
Da lealdade suave de um fotógrafo

Não há voos que perduram
Não há gestos que se eternizam
Senão efémeros instantes
No ápice da sua dissipação antes
Refazem-se a si próprios
O fulgor de novos instantes

Nuno Teixeira de Sousa
15-06-2010

sábado, 30 de outubro de 2010

Nos círculos dos dias de ser mariposa

 
Venho ao fundo do dia
com o sonho capturado pelo mar
e uma cidade inteira no suave longo silêncio
corre por ela rumores de levar as paredes de pranto


seria o dia o descanso a sonhar
pesada tarefa de Psique em sono
silêncio larvar de musa petrificada
a procurar o amanhecer para pousar
nos círculos dos dias de ser mariposa.

Nuno Teixeira de Sousa
30-10-2010

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Bernardo Soares


Sou uma espécie de carta de jogar, de naipe antigo e incógnito, restando única do baralho perdido.
Não tenho sentido, não sei do meu valor, não tenho a que me compare para que me encontre, não tenho a que sirva para que me conheça.
E assim em imagens sucessivas em que me descrevo – não sem verdades, mas com mentiras – vou ficando mais nas imagens do que em mim, dizendo-me até não ser, escrevendo com a alma como tinta, útil para mais nada do que para se escrever com ela. Mas cessa a reacção e de novo me resigno.
Volto em mim ao que sou, ainda que seja nada.
E alguma coisa de lágrima sem choro arde nos meus olhos hirtos alguma coisa de angústia que não ouve me empola a garganta seca.
Mas ai nem sei o que chorara, se houvesse chorado, nem porque foi o que não chorei.
A ficção acompanha-me como a minha sombra.
E o que quero é dormir.

Bernardo Soares, in Livro do Desassossego

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

O sonho nas tuas mãos

 
Escreveste sabiamente o sonho nas tuas mãos

Tantas vezes deste-me a ver as tuas palavras a navegar no meu rio

E tantas vezes te mostraste depois diferente

Mas sempre surpreendentemente no seres maior
És nascente junto à luz noturna das estrelas
Fonte das constelações onde dormem os arcanjos em ermo sono
E assim chegaste no teu gesto simples no tocar perto o sonho
Foste mais que o próprio corpo do sonho
… foste
em absolutamente ser simplesmente total

Nuno Teixeira de Sousa
20-10-2010

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Procuro as horas dentro dos segundos

 
Na ara do único e eterno instante
faz pranto o círculo quebrado em dois
um arco de palavras que me chamam

Neste tarde
Caminho que desabita o texto
Que desaba os dias na deriva do contra-texto
Neste ainda tarde mais
Procuro as horas dentro dos segundos
As palavras...
Partem para amanhã no manto de uma manhã despovoada na orla dos pinheiros

Nuno Teixeira de Sousa
15-10-2010

sábado, 9 de outubro de 2010

John Lennon


domingo, 3 de outubro de 2010

Um difuso pensar perdido dentro de uma manhã

 
Sentir-te neste aproximar
Respiração das palavras em luz branca

_____ este perto

...no meu contraproducente silêncio

Guardo o não entender entendendo
Singularidade distinta imensa do teu sentir

Na particularidade de ser só minha
Perdida dentro de uma manhã
Um difuso pensar
Embargo do pensamento suspenso, em 36, paragem do sentido em des-sentido no caminho que trajo
Domingo que escrevo, que penso, pensar do que sinto da ambiguidade de pensar
O completo e repleto sentido feito e contrafeito, relatividade na sua magnificência dos arcos mínimos
Retenho uma sumária rasura de gestos que emanam na respiração fugaz da luz
Para logo os perder num jogo contraditório de espelhos, desfecho do enlace do dia longo de contra-texto no des-laço das minhas palavras

Nenhum sentido se houvesse um pensamento de um entendimento em libreto de in-sentidos

Sem ser epistolar, carta in-missão nas palavras arrumadas pela alma

Na nascente ao jardim mor desagua em canais a água que cai no lago, a outros lagos se lança em canais mais, até por fim no pomar desaguar, são os frutos que esperam caídos sobre o chão
... sento-me
… ouço o canto inaugural dos pássaros
Na infinitude do espaço
Nenhuma vera explicação na iluminação que se prende ao arco dos dias

Neste...
lugar de tocar o perto
Tateio o desaguar do teu nome

_____ somos livres,

... nos (meus) rascunhos, de lanços soltos, lançados em abandono no absurdo silêncio, do desaguar no intervalar abertos na mussitação do traje
– somos livres …
Na porta ao lado da felicidade damos abrigo à dor
Livremente guardada pela liberdade –

Não trago nenhum poema
Arrumo o rumo das palavras que vagueiam no intervalar de sentidos dos des-sentidos lugar de sentir com a alma
Trago-as sem nenhuma iluminação do explicável
Trago-as alojadas em reverso sereno submersas no disperso cenário árido desenhadas no tato

Como não sou poeta largo-as em qualquer canto que paira no breve voo dos pássaros onde plantei uma árvore com respirar do sangue com o meu nome

Gosto de lá voltar
Onde me sento e escuto o suspirar das folhas no caminho táctil do meu sangue

Onde...
me dou
me procuro
Num encontro que se faz lonjura
O tempo que é presente
Sem ser tempo ausente
É divergente no ser diferente

Nuno Teixeira de Sousa
19-09-2010

sábado, 25 de setembro de 2010

Pétalas cor de Outono

 
Neste dobrar difícil do tempo
na falta de um tempo que ausente constrange outro tempo

O céu perto nos gestos brancos e maior no olhar
Nesta manhã
de dia-a-dia no trabalho novo dos dias
sábado suspenso no amanhecer do círculo dourado aspergido
na cidade aberta na contra-luz num novo outro Outono

neste ir
onde o azul e o branco alumia a alma do rio no tocar o eterno estranho amar
um rápido clarear no desenhar o lapso fugidio das palavras

ofereço-te no contorno do amanhecer do vento fresco
em gotas cintilantes de luz prata das linhas de água as pétalas cor de Outono

Nuno Teixeira de Sousa
25-09-2010

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Pausa inevitável


Pausa inevitável

_______visível

No único trilho
_______riscar dentro do tempo
... o meu caminho

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Símbolos de sucesso

 
Funcionário descartável
Sem carta da função dos dias
Soma ao fim dos algarismos a 30 dias
Neste guião
O princípio é cifra a subtrair
Não há remissão nas amarras de amassar os dias
Neste dispensário sem missão
O Canto não tem faro

Canto que não é vento
Moei que não moei
Doei

Perde o bago
Atafona em (re)moinho
Sem massa
Na falta de grão
Não amassa
Roda que não roda

Dança que dança
Pião “gira que gira”
Que falta não é de grão
Nas gárgulas, coruchéus
Cornijas e capitéis
De originais pecados capitais
Regalias e outras manias
Das cismas em chefes capitães
“Gira que gira
O meu pião
Mas não t’o dou
Nem por um tostão.”

Cores que inspiram refrães
Em rosáceas que suspiram
Nas garras de uma cartilha
De sequiosos aplausos
Uma multidão de pé

Curvam-se os incrédulos
Nos baldaquinos morais
Pelos altares-mores florescem
Contos de fadas
Belas adormecidas
E príncipes encantados
Flores florões e florais
Desfalecem
Nestas romarias e outras bizarrias

“Corre corre cabacinha” da festa destes fogaréus
Na santidade deste refrão carregas as labaredas
Fogueira onde arde o teu diário
Em procissão do rosário deste silabário.

João Romão
21-05-2010

segunda-feira, 9 de agosto de 2010


 OLHO O TEJO, e de tal arte
Que me esquece olhar olhando,
E súbito isto me bate
De encontro ao devaneando —
O que é ser-rio, e correr?
O que é está-lo eu a ver?

Sinto de repente pouco,
Vácuo, o momento, o lugar.
Tudo de repente é oco —
Mesmo o meu estar a pensar.
Tudo — eu e o mundo em redor —
Fica mais que exterior.
[...]

Pessoa, Fernando, “Além-Deus”, in Cancioneiro


dizem que em sua boca se realiza a flor
outros afirmam:
            a sua invisibilidade é aparente
mas nunca toquei deus nesta escama de peixe
onde podemos compreender todos os oceanos
nunca tive a visão de sua bondosa mão

o certo
é que por vezes morremos magros até ao osso
sem amparo e sem deus
apenas um rosto muito belo surge etéreo
na vasta insónia que nos isolou do mundo
e sorri
dizendo que nos amou algumas vezes
mas não é o rosto de deus
nem o teu nem aquele outro
que durante anos permaneceu ausente
e o tempo revelou não ser o meu

Al Berto, “A Invisibilidade de Deus” in Sete Poemas do Regresso de Lázaro

segunda-feira, 26 de julho de 2010

O maestro e o figurante - Este é o meu palco

 
— Dobras do olhar;


redundâncias do olhar;
 
 
cansaço do olhar no olhar;
 

escrita de gestos ínfimos que se misturam com sons mínimos do olhar;
 

réplicas da alma presas do olhar;


— Este é o meu palco, com elas desenhei o meu deus total — interpôs o figurante.


— Desenhaste este palco com as linhas invisíveis do teu sonho — afirmou o maestro. — Seremos sempre a lateralidade do centro. Centro que não tem lugar aqui ou além.


— Maestro, dizes para lançar nos mastros os trajes dos meus olhares, mas falta o vento que está no respirar dos lobos.
— Podemos sentar os lobos no lugar dos remadores.
— Faltam-lhes os remos que trazem o alimento.
— Partir é sempre uma encruzilhada...
— Princípio onde se oculta a vera senda que às minhas mãos não se revela o caminho a escolher. Mas tu, maestro, versado nos versos do devir, conhecedor de todos os contrapontos da música total, deixas-me preso de pés e mãos neste epicentro sem centro e sem lateralidade.
— Sou feito de gesto do escultor no seu sonho maior de moldar o barro.
— Maestro, és onde inscrevo o meu sonho.
— Bebo a água nas tuas mãos, a tua sede é minha sede.
— E, quando barca lunar vier e partir para a longa noite onde adormece a água do rio?
— Assim, também partirei, na tua lateralidade estarei. A mim compete-me ser, só e unicamente, deus total, forma completa em mim mesmo e sem exterior para onde ir. Em ti não há fuga possível de ti próprio a não ser tu completamente. Por isso não importa a tua lateralidade num epicentro sem centro, este é o teu palco onde descreve o teu nome totalmente inscrito em mim.
— Mas isso... é paixão dos passos dos meus dias.
— Assim será por teres abraçado a luz do dia.

Nuno Teixeira de Sousa
23-04-2010